Outra vez conversaram meus olhos e teus óculos. Digo os óculos, pois nós sabemos que eles estão de tal modo pegados ao teu rosto que seria uma estranheza falar de forma diferente. Andei mesmo pela rua do medo, fiz adendos na madrugada. Havia na calçada um galpão de estacionamento, dentro dele a minha voz acendia e eu sorria, investindo no ato de nada reconsiderar. Um não bem dito (bendito!) contra o corpo de um amigo é remédio contra o vulgar. (Ei moço, me arruma uns fósforos? Deram-me uma caixa inteira)... Duas eu acho. Três da Gal. Quatro dos galos. Cinco dos sinos. Seis dos pães já prontos da padaria. Sete do sol medonho, melindrado. Oito do sim-é-dia, e só depois é que a noite desenssimesmará. Então, tu me dizes, delicada perversidade, saltinhos cor de poeira e manso coração-mirrado: "é desespero isso de andar pela cidade". Sou obrigada a te cumprimentar. "Há um excesso de verdade no mundo" - disse Raduan para uma galinha que ciscava, descompromissada, a terra do sitio - El Dourado de quem cansou dos ornamentos do circo. Depois ele desistiu, digo o Raduan. Assim, peço: não me ofertes o teu excesso de verdade, me deixa apenas a falta dela, essa mãe-d'água que nunca promete graça, milagre ou proteção. Não ouses furtar as minhas dores, foi muito difícil encontrá-las no Mercado Livre. Mas por que as cegonhas não são igualmente responsáveis pelo recolhimento dos bebês mortos? Tu, pela primeira vez em tua vida, tocas de leve as linhas da minha vida na palma honesta da minha mão, entrega-me um livro vermelho/branco: "Poesia da Recusa". Eu sei o que significa o livro, gente morta pra eu pôr no teu lugar
De que livro tu tiraste esta verdade?
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
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domingo, 28 de junho de 2015
- Ao Jack
- Quero, coração, esquecer-te como os vivos se esquecem dos mortos; como o eterno se esquece do fim. Quero esquecer-te como o poeta que desiste de sua lavra para olhar um pouco mais a ferida, antes de prendê-la numa sílaba; a vida, antes de salvá-la numa palavra. Quero, coração, esquecer-te como o poeta que faz um verso torto e, para não morrer de desgosto, deixa irromper seu desagrado. Quero, coração, amassar com as duas mãos o teu composto: este rascunho equivocado! Este brinquedo de fazer troça!... Eu quero, coração, embora tu bem saibas que eu não possa...
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sábado, 9 de maio de 2015
faz-lhe massagem com mãos de mágoas; oferece-lhe sem pavor o catálogo de tua dor, acrescido de um copo d'água. Prescruta-lhe bem os motivos, até que o ridículo da vida cave em ambos um riso... que como apito de trem, fim da visita anuncia - amém!
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Construção da Alegoria - do amigo Nagib Jorge Neto
sábado, 21 de fevereiro de 2015
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Amoximoro II: o belo terrível
domingo, 18 de janeiro de 2015
Em matéria de amor
eu, doutor em chagrisse
Pedrinho de petitices
misto de lobo e pastor
Se o assunto é amor
Se o assunto é amor
não me peças conselho
sobrolhos em pesadelo
mais fácil falar shikomor!
Vindo o amor na calçada
Vindo o amor na calçada
atravessa, desce a escada
salta-te logo debaixo d'água
Sê avarento de sentimento
poupando teu coração desta
inútil sedição de tormento
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quinta-feira, 6 de novembro de 2014
(Acrílico s/t)
os olhos azuis da bondade
os verdes da traição
negros: sinceridade
castanhos: devassidão
se puxados ou não
puxam para si os meus próprios
ímã, rosário, ópio
sejam grandes, pequenos
firmes, desatentos
intrigantes ou amenos
olhos, é preciso olhar nos olhos
cerrados como se japoneses
saltados como se denunciados
de sobrolhos adornados
ou até mesmo: vazados
- branca retina tornada bruta...
olhos, é preciso despi-los
saber de sua luta
botão a botão
como se flores cuja surpresa
fosse o inseto pousando na mesa
ou o perfume que aquieta o coração
olhos: um pouco de coisa-em-si
mas sem poderes de camaleão
sejam cheiro de casa limpa
ou odor deletério de cripta
é preciso cheirar os olhos
- (com os olhos)
sejam unhas riscando a losa
ou os mimos de uma voz rouca
é preciso ouvir os olhos
- (com os olhos)
sejam banquete em Fontaineblue
ou magra avoante na brasa, assum
é preciso saber o gosto dos olhos
- (com as pupilas gustativas)
sejam a pele das macieiras
ou os espinhos das carnaubeiras
é preciso tocar os olhos
- (com os olhos)
sejam calmos tal Monalisa
ou assustados como em Guernica
é preciso olhar os olhos
- (com olhos abertos e sãos)
os olhos que passam
e nos olham por baixo
os olhos que Não.
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Um dia, voltarás pela Rua do Cruzeiro acompanhada de tua sombra somente que, imóvel e calada, olhará como se a te julgar. Dos despojos dos despejos: a solidão dos teus passos — apenas a pouca velocidade seguindo a acompanhar. Uma senhora em sua porta talvez pergunte: vens de longe? Não tens medo de andar a essa hora? Teu sorriso responderá que é preciso voltar, não importa se longe e tarde ou se o mundo bichado de salteadores. - O mundo anda mesmo bichado de salteadores, mas eu cuido de guardar a minha alma sempre que ando pelo lado de cá. Um dia voltarás pela Rua do Cruzeiro, de finados um domingo, quem sabe. Então pensarás que também tu não receberás flores ou reza ou lembrança fast-food a estrito descarrego de consciência... Pensarás que, como os mortos cujos vivos que deles lembrariam já também mortos, esperarás nervosa pela visita de novembro, que não vai chegar. Um dia será a Rua do Cruzeiro a te atravessar. E tu, morada do nada, nem mesmo saberás.
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sábado, 31 de maio de 2014
Mas o que pode, então, o Tempo?
Revirar, ao avesso, um tormento?
Ser antídoto para dor de ferroada?
Príncipe, o da maçã envenenada?
Sumo pilar do eterno movimento
sonda desertos no torso do vento
Plantando heras infelizes, aziagas
parindo feras, loucas e pressagas
Ora é aliança, ora foice espada
nele coincidem porto, mar e jangada
Volátil e indômito por temperamento
fome da fome, raiz do formigamento
Fosca claraboia jamais fechada
redemoinho, o frio golpe do nada
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quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Quando os sinos dobram enganos
e as auréolas caem machadas
visito as sombras de nossos anos
retorno ao baile: às mascaradas
Há tintas tantas cobrindo as caras
panos vermelhos por sobre as falhas
há fantasias corando as almas
flores de indústria na vez de dálias
Dedos cruzados fingem ser figas
mas eis: a quase-noite tudo aclara
morrem as cópias, nascem intrigas:
uma mulher de perna curta nos encara
e as auréolas caem machadas
visito as sombras de nossos anos
retorno ao baile: às mascaradas
Há tintas tantas cobrindo as caras
panos vermelhos por sobre as falhas
há fantasias corando as almas
flores de indústria na vez de dálias
Dedos cruzados fingem ser figas
mas eis: a quase-noite tudo aclara
morrem as cópias, nascem intrigas:
uma mulher de perna curta nos encara
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domingo, 3 de novembro de 2013

Tudo não passa de mera repetição
Montanhas e pássarosMinoutauros e astros
Demônios, labirintos
A salvação e os ornitorrincos
Tudo não passa de devir restaurado
Dos olhos da amada
Ao sol na calçada
Do terno rompante
Às mentiras do amante
Tudo é apenas pleonasmo ambulante
Os versos de meus poemas
A língua até nos fonemas
Sobre ou abaixo do sol
O mesmo a lançar seu anzol...
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sábado, 2 de novembro de 2013
Como é bom não ser mais tua
E no espaço polissêmico da distância
Acatar que sou de novo uma criança
Livre, tal prisioneiro lançado à rua
Como é leve a natureza do não-ter
Num tempo que se desata dos pesadelos
Volto a ser imagem dentro de espelhos
Elevo-me sobre as ruínas para melhor ver
Como é belo que o fim viceje o começo
Não o corte me trouxe o cadafalso
Mas o expurgo de inútil carrapato
Banido de meu avesso, morto qualquer apreço...
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sábado, 26 de outubro de 2013
Porque o céu já não é mapa
Ou as estrelas rosa dos ventos
Dirijo-me à força de vontade fraca
À sombra de quereres lentos
Porque o outro, desfeito o porto,
É o perigo em forma de dentes
Tal cão cansado, finjo de morto
Escapo à fera dentro das gentes
Porque o tempo bole no sangue
E o silêncio arde no ouvido
Procuro, qual cartaz de bangbang,
Vivo ou morto: algum sentido...
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quinta-feira, 17 de outubro de 2013
Será que tudo não se cansa?
Os pássaros e os pedregulhos
As árvores e as crianças?
O sol, de ensolarar
A lua, de nos encimar?
Será que tudo nunca se farta?
Cardumes, bancos de praça
Os velocímetros e as moças castas?
O dia, de sempre fugir
A noite, de nos redimir?
Será que tudo jamais desanima?
Poetas, de encontrar rimas
Os loucos, de suas sinas?
O tempo, em sua missão de amortecer
A vida, na intenção de elastecer?
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terça-feira, 1 de outubro de 2013
O dia é assim tão pouco
Pr'acatar todo desgosto
Abonar o amor deposto
E repensar outro desvão
O dia é assim tão mínimo
Pra esquecer um rosto cínico
Enredar sonhos menínicos
E debulhar nova canção
O dia é assim tão raro
Pra pensar nalgum amparo
Acertar rusga ou reparo
E educar cada ilusão...
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012
"Composição VIII" (1923), Wassily Kandinsky (1866-1944)
A forma geométrica do amor é o círculo. Há um ponto e um raio dentro desse círculo, e linha que pode ser traçada do centro até a volta redonda da figura, maciez espacial. Amar é como ser dentro disso: o ponto no centro do círculo assinala que somos ainda, essencialmente, uma crua solidão. A linha indo do ponto até as bordas, diz que a solidão pode ser alcançada, aferida, tocada e, portanto, desfeita enquanto universal em um abraço terno, particular.
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Escrita sem medo - por Henrique Marques-Samyn
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Górki por Nelson Mielnik
Ângela Calou é uma jovem escritora cearense; Eu tenho medo de Górki & outros contos é seu livro de estreia. A obra reúne pouco mais de duas dezenas de narrativas, que variam na extensão e na temática. Alguns dos contos são melhor acabados; outros mais se assemelham a exercícios ficcionais − o que não é um demérito. Ângela experimenta, arrisca-se, explora a linguagem com notável desenvoltura. No prefácio à obra, Tércia Montenegro, ela mesma contista, assegura: “Ângela Calou já encontrou seu estilo, neste livro de estreia”. Embora a afirmação me pareça algo temerária, sendo a autora ainda jovem, é fato que está muito próxima disso. Sua escrita tem ritmo, variação léxica e vigor estético. Ângela, sem dúvida, já nasce contista − não aspirante, como os tantos escritores que mais tarde renegam suas primeiras páginas.
Todavia, o que me parece mais importante é o fato de Eu tenho medo de Górki & outros contos denotar uma evidente independência. Ângela não faz concessão a modismos, afetações desnecessárias ou forçosos artifícios; pelo contrário: sua escrita é despojada − sobretudo, isenta de certo vício intelectualista comum nos jovens contistas de hoje. Não que não haja, em seus contos, referências culturais: já o título do livro evoca um dos mais importantes autores oitocentistas; Ângela cita Cézanne, Beethoven, Walter Benjamin em epígrafe. Essas citações, entretanto, respeitam a economia narrativa, não soando gratuitas ou pedantes. Para além disso, se os contos eventualmente resultam algo herméticos, isso parece menos atribuível à intenção estética do que à busca temática à qual Ângela corajosamente se lança − e que é, a meu ver, o ponto em que mais nitidamente se percebe o teor inaugural do livro.
Eu tenho medo de Górki & outros contos é uma obra auspiciosa − a abertura de um horizonte literário em que ainda há muito a ser construído. Ângela, contista de talento, arrisca investidas, tateia motivos, acerca-se de universos temáticos ainda não de todo definidos. Por vezes, parecem eclodir alguns temas recorrentes, possíveis indícios destas ideias fixas que obcecam os escritores: as perdas, as despedidas, os abandonos. Contudo, quem sabe por uma propensão filosófica, ela ocasionalmente conduz a narrativa para instâncias abstratas, quando poderia insuflar nas palavras a matéria vivida (o que, desnecessário dizer, nada tem a ver com a exploração de referências regionais: Lewis Carroll, de quem Ângela toma Alice por empréstimo, não se referiu concretamente a mundos imaginários?). Se, de fato, será esse o melhor caminho, apenas a escritora poderá decidir. Ângela Calou já abriu as portas de seu universo literário; cabe-lhe, agora, o desafio de − sem medo − sondar seus recantos.
(Publicado originalmente em http://clavecritica.wordpress.com/2012/04/09/escrita-sem-medo/, 09/04/2012)
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O Górki de Ângela - por Batista de Lima
quarta-feira, 21 de março de 2012
Tépido e gorduroso é o texto de Ângela Calou. Calorento, fogo de monturo, borralho. Sebosa sua metáfora. Suja de eras, balseiro de signos, coivara de suposições. Ler essa moça é um desossamento. É preciso extirpar musculaturas, atolar-se. Não se consegue tomar pé nas suas dimensões. Falta fôlego para tanta fundura. Lodaçal de possibilidades. É uma senhora madura, nascida em 1988, mas que já existia muito antes dos aluviões. E é de Juazeiro do Norte. Infeliz de quem ler "Eu tenho medo de Górki". Mais infeliz de quem não ler.
Há um buraco que ela constrói de dentro para fora. Uma explosão que intumesce as coisas, como um estômago que se instaura onde a gente pensa que nada há. Ângela garimpa as coisas nas palavras e as palavras nas coisas. Suas escavações desestabilizam os códigos e criam pulsações onde vidas se refugiam. Perversa, seu corte é feito com gume cego. Doloroso corte que vitima o leitor invasor dos seus domínios. Seu texto esburacado só permite leituras trepidantes. Não é apenas poesia em prosa, mas também uma troca de sopapos com Clarice que ousou partir mais cedo. É um texto cheio de calos, novelos invisíveis, palavras blindadas em perscrutação. Ela prospecta em desertos para encontrar oásis.
A certa altura da jornada, ela chama os mortos para o jantar no dia do avesso de Joana, uma das suas enigmáticas personagens. Quando está movida a desimpressão, encara a paz das telhas e faz chover canivetes e demônios incautos para martírio das cicatrizes. Por isso que seu choro é para dentro e tudo que por fora fica, oco se torna. Tudo vaza para dentro em contrapassos da lógica. Isso porque essa moça é um poço de rebeldia, um calabouço das convenções. Seu coração é guardado numa pochete cadeada. A fome ela guarda no congelador porque acha terrível não ter fome. Mas quando se chega ao conto "Eu tenho medo de Górki", é o leitor que se fere sobre um formigueiro de imagens. Dóris emerge como última esperança de salvação do código. A palavra sobrevive.
Em "Capricho 43" ela revela: "Eu sou o inseto sobre a cama (...) Eu sou os dois - o que observa e aquele que se abandona à medida da vista de seu observador (...) Eu sou uma frase de não-sentido". Já em "Quase uma fantasia", ela mostra muito conhecimento de Beethoven. Chega a concluir que não foi o compositor que ensurdeceu mas o mundo que de repente emudeceu. Tudo semelha a uma "ode à melancolia em fim de tardes maceradas e distraídas no mormaço da escuridão". Essa melancolia também transpira do texto de Ângela como para dizer que é a morte que abre as portas ao mundo da alegoria. Daí que seu talento é assombroso e seu mundo é como que algo despedaçado a necessitar de um ajuntamento de cacos para dar sentido ao existir.
Além da colocação da fome no congelador, Ângela ronda a cidade com os olhos cheios de sede. Mesmo assim, sua verdade é verde, a morte é branca. Ela consome a cidade e,ao mesmo tempo, dela vaza pelo oco incrustado no meio das falas e das coisas. Então ela pensa em não mais pensar, mas apenas transitar pelos "caminhos lodosos de suas rusgas internas", como quem conta grãos sem a certeza de que os está contando. Isso não impede de, escondida, rasgar as coisas de dentro para fora e brotar nelas, emergindo de mergulhos. Essas coisas são tão vasculhadas que, personificadas, a autora praticamente executa uma terapia que funciona a partir do leito das metáforas.
A leitura do mundo, feita por Ângela Calou, dispensa significantes porque seu pé de apoio está muito aquém das superfícies. As poucas vezes em que emerge dessas profundidades é para roubar as cores das coisas, numa traquinagem que estilhaça as encostas da tarde. Daí que sua escritura radical se torna encantadora. Há um singelo encanto radical que faz do paradoxo uma brisa de outubro e extrai das metáforas mais sisudas seus sentidos mais inconfessos. Por isso que o foco de suas incursões no campo do humano se fixa na fala. Ela atua no que há de mais tenso entre o indivíduo e as engrenagens sociais. Essa tensão é sua matéria prima. Acontece que as coisas também entram como actantes nesse processo.
Essas coisas são personificadas, dialogam entre si e também possuem seu código para colocar o mundo em desarranjo. É daí que nasce sua fala, como rescaldo dos atritos entre metáforas e metonímias. O corpo dá lugar á corporeidade, como uma desconfiança diante da pouquidade do que é sólido. Há um Antoine na sua vida que ousou entrar no texto, concha, molusco e boca, enquanto a sede é da narradora. Amá-lo é amar-se. É por isso que pela segunda vez ela tem dezoito anos. Antoine é o Poeta de Meia-Tigela? É o que sugere o Posfácio, que se configura como a culminância do livro. São indizeres que não deixam de dizer. São doeres que não deixam de doer. São desestórias que não deixam de historiar.
É difícil não ter medo de Górki. É uma leitura para ser feita pelo avesso. Uma transgressão precisa de uma leitura transgressora. É preciso alojar-se na estrutura profunda para encetar uma emersão de dentro para fora. É preciso impregnar-se de sombras para a conquista da mais nítida claridade. O oco que ela vasculha nas falas e nas coisas é um buraco a ser preenchido pelo leitor, é um vazio que quanto mais repleto fica, mais oco se torna. Não se lê Ângela Calou se não se usarem as suas e as nossas ferramentas de escavação. Há uma teia que ela tece, que pesca o leitor de fora para dentro, para que tudo comece pelo porão. Há uma caverna que nos engole, metáfora de Jonas, o profeta.
Por fim chega-se ao final do livro com a ilusão de que se conclui a leitura. Impossível livrar-se de um afogamento se a batalha da emersão não continuar além do texto que nos é dado. Ângela Calou abre apenas uma fenda que engole o leitor, afogando-o. A leitura é pois um desafogamento. O signo verbal parece ser incompetente para ajustar significado e significante. O referente cai numa deriva que o obriga a criar um porto para chegar. Esse dilema sugere a metáfora do dilúvio quando a autora promove um ponto de chegada. A leitura desse livro é um exercício de coragem. É preciso perder-se para se conseguir achar-se. Se Ângela Calou tem medo de Górki, eu tenho medo de Ângela Calou.
(Publicado no Caderno 3 do Diário do Nordeste, edição de 20/03/2012: http://virtual.diariodonordeste.com.br/eds/2012/03/20/D/paginas/pdf/D3.pdf)
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Para que nunca-nunca soubesse
terça-feira, 6 de março de 2012
Mädchen mit Katze - Heinrich Vogeler (1872-1942)
Duas nuvens pesadas, em promessa de compromisso, aproximam-se a cada minuto, sorvem a abertura de um quarto de céu lilás. Embalados pelo vento ameno, detritos conhecem detritos, mudam de lugar transportados pelos pés de crianças animadas que carregam, de lado a outro, o cuidado de suas babás.
Camila devolve à mesa o estalido do copo. Vagueia pela debilidade do betume velho a ajuntar os blocos de cerâmica negra no chão do café. Retorna aos lábios finíssimos de Ezequiel, relê sorrisos capturados nalgum passado. À procura de arcanos nos arcos das sobrancelhas, depõe os óculos sobre os riscos azuis do guardanapo. Aperta os pinos e retoma os lábios – que frágeis lhe parecem como a memória dos sonhos naquele instante em que a vigília é ruptura, inescapância, incandescência de importuna imposição.
Camila devolve à mesa o estalido do copo. Vagueia pela debilidade do betume velho a ajuntar os blocos de cerâmica negra no chão do café. Retorna aos lábios finíssimos de Ezequiel, relê sorrisos capturados nalgum passado. À procura de arcanos nos arcos das sobrancelhas, depõe os óculos sobre os riscos azuis do guardanapo. Aperta os pinos e retoma os lábios – que frágeis lhe parecem como a memória dos sonhos naquele instante em que a vigília é ruptura, inescapância, incandescência de importuna imposição.
Pássaros despertos tornados mínimos dispersos grafam voos distantes sob o fim da paisagem. Passantes levando sacolas prescindem estranhamente do ódio e da pressa. Quatro pipas paralelas abandonam seus passeios e, o garçom, à altura da janela, sugere que a tempo troquem de mesa, a chuva ameaça descarregar.
Há casos em que a luz dos interiores é feita em quantidade para mal-iluminar. A sombra leva dos rostos um lanho estrábico de impedimento, o escuro conturba a visão para que livre seja nos ares o som das gargantas em ecos incautos de revelação. A noite viabiliza o cheiro das torrentes íntimas de confissões necessárias e os olhos de Ezequiel procuram a máquina de fotografar que, no parque próximo, enxerta na natureza a dupla mira do globo ocular. Constata que Camila dispõe, como antes, parte do cabelo por trás da esquerda orelha miúda e, também como antes, assim sem concreto empecilho e completamente dado à visualização, muito pouco de seu rosto é possível considerar, conhecer, adensadentrar. Os joelhos descobertos e as mãos protegidas do mundo na concha uma da outra.
Garfos perfuram com facilidade a carne macia de um bolo-pudim. Nacos de impressionismo salpicam a boca de uma boneca – pendida no teto, parece leitora dos quadrinhos de jornais velhos colados à parede na vez de decoração. Ondas de expressionismo chocam-se à micrológica da saliva de Camila, ela enlaça a toalha e a língua em dizeres entrechocados e imagéticos.
Lívido é a palavra literária para Ezequiel – pensa depois da recusa da água tônica oferecida discretamente pelo mesmo garçom.
Não há modos de fugir dos olhos, se se usa os olhos para tanto. O olho abriga os ângulos e as geografias dos vincos da verdade e a verdade, de blocos de pedra faz corpos revestidos de aberturas. Imagem submetendo conceito. O choque. O silêncio se debatendo, tal borboleta sob as redes e alfinetes de um impassível colecionador.
A palavra às vezes esmurra a boca para fugir da palavra e encontrar o silêncio e pensar usando silêncio ao invés de palavra:
– Fui eu, sim, Ezequiel. Roubei o teu boneco Playmobil. Quebrei o pezinho dele. Joguei-o, de medo, debaixo do guarda-roupa, para que nunca-nunca soubesse de meu crime de menina, e assim, naqueles dias em que teus sonhos repeliam a prefigura da ruína desse vago de esperanças, não me quisesse mal, ainda que mal fosse apenas um olhar de desgosto atravessado pela lembrança do brinquedinho estragado.
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Antoine voltou a pé
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
"O Louco" - Mauricio Takiguthi
Antoine voltou, sem que nunca eu soubesse como. Verifiquei várias vezes seu triste fim, toquei com os dedos o líquido verde que lhe escorria pelo nariz, fechei seus olhos para que não assustasse ninguém a vitrina adoecida de sua morte encomendada pelo costume negro de meu espírito.
Colhi as flores, fiz o café, um pouco amargo, é certo. Levei aos ombros a pá mais pesada para garantir o profundo do lugar de desova de seu corpo inoperante. Eu mesma. Tudo. Inclusive coisas pequenas como o enlaçar dos dedos sobre o peito fatigado da luta contra o travesseiro que usei, outrora, para lhe roubar a corrente de ar. Inclusive a camisa branca com listras pretas e o suspensório sobre a calça xadrez, onde escondida no bolso direito, encontrava-se ainda a caderneta amarela que, por anos, salvara no fenômeno as ideias de Antoine, lá, embaixo da escada, à luz imóvel do velho abajur.
Estava morto, nada vivo teria lábios tão frios. Ocorre-me, porém, a cruel possibilidade da dúvida, a faca cega do engano afiada na pele, na ausência de pedra-pome. E se Antoine me assistisse com um meio olho aberto, de soslaio, rindo por dentro de minha crença na eficácia de minhas próprias mãos? E se tudo não passasse de erro? E se o frio nos lábios fosse coisa dos meus lábios apenas, impressão de minha refratária condição?
A morte era um rato metafísico, roedor espectral que rondava agora a minha carne, pois é sabido que, aquele que escapa a uma emboscada, segue tentado invariavelmente a reproduzi-la na condição invertida de arguto algoz. Antoine não me sorriria, pois também é sabido que, quem não morre de susto, segue tentado a reproduzir no outro esse mesmo susto e, assim, quem espera, como eu, cai num soluço implícito que por nada quer passar – como se soubesse num lugar interno já ser essa hora coisa marcada.
Restava-me a capitulação. Depois de carregar um corpo morto com o dobro do meu peso por horas, dias, talvez semanas, meses de presença morta, alucinógena, debilitada, tive a impressão de que encontrara um lugar distante. Percebo, agora, que era, pelo contrário, muito perto, pois vejo que Antoine voltou a pé.
Devia eu ter-lhe quebrado as duas pernas no exercício de minha maldade, vê-lo sofrer, banhada de água doce e de veneno e, desse modo, ter adiado o estranho problema, pois com o trauma de seus membros, ele certamente demoraria. Não pensei na hora, e assim pago por isso: será este então o meu fim? Nego-me, no entanto, a pagar por isso: em minha bolsa de mão, a solidão de uma última moeda. Aquela que se destina ao jogo de cara ou coroa que terei de fazer a cada bifurcação.
Meus cabelos começaram a cair, meu corpo dança outra vez no vestido de flores que, de repente, pareceu bem maior, como Alice e os pedaços de sonho que a faziam esticar para fora e para dentro. Em meu caso, porém, são pedaços de um pesadelo. Antoine voltara e, mesmo se nunca fosse imagem na minha retina, velado em uma suspeita obsessiva, seria mais que possibilidade: a irrefutável certeza do assombramento de calafrios.
(Extraído de Eu tenho medo de Górki & outros contos, 2011)
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Ângela Calou e a captura do fugidio - por Nilto Maciel
sexta-feira, 7 de outubro de 2011

É de 27 de agosto de 2011 a dedicatória de Ângela Calou, em Eu tenho medo de Górki & outros contos: “Ao caro Nilto Maciel, em suas luzes vermelhazuis de carnavalha, dedico este pequeno diário de sonhos imaginários e nacos de desrazão. Desta, que nem sabe domar o próprio medo”. Para quem não sabe, dois de meus recentes livros são Luz vermelha que se azula e Carnavalha. Tenho um soneto intitulado “Nem sei domar meus próprios cães”. Górki eu li pela primeira vez (ou segunda, pois durante o curso ginasial li uma antologia de contos russos) nos conturbados anos 1967/70: Mãe ou A mãe, leitura obrigatória de todo comunista.
O que significam “diário de sonhos imaginários e nacos de desrazão”? Todo escritor escreve um diário (a obra), mesmo aqueles que escrevem de vez em quando ou com lentidão. Todo diário de quem escreve literatura é constituído de sonhos. Todo sonho de escritor é imaginário. E isto é a desrazão. Ou a “captura do fugidio”, de que fala Tércia Montenegro.
O impresso de Ângela é pequeno, traz nas abas uns elogios de Pedro Salgueiro, um prefácio (“Uma arte que vicia”) de Tércia Montenegro e um posfácio poético (“Para Ângela Calou, o método secreto das fechaduras”) de O Poeta de Meia-Tigela, além das 22 peças ficcionais, num total de 96 páginas. Talvez apenas 70 com texto. Entretanto, que beleza, que riqueza, que pujança! Sim, quantidade não quer dizer qualidade. Quem não sabe disso?
Como todo bom livro de prosa de ficção, este de Ângela Calou nos remete, inicialmente, a duas perguntas: Quem narra? O que narra? Vejamos “Antoine voltou a pé”. Quem é o narrador? “Antoine voltou, sem que nunca eu soubesse como”. Quem é esta mulher, cujos “cabelos começaram a cair”, para quem “a morte era um rato metafísico” e que pouco fala de si mesma, ocupada com a morte de Antoine? Talvez não seja tão importante para o leitor saber quem narra. Certamente os personagens são mais úteis à ‘trama’ do que os narradores. Pois Antoine está na primeira (“Antoine voltou a pé”) e na última (“Eleve-me! – foi o que lhe pedi”) composição do volume. O que isto significa? Que tudo é um círculo? Outros nomes se repetem ou voltam à baila (narração?): Céu (que nome mais inusitado!), Carlile, Amábile, Rudah, Querubim (presentes também em “Marca d’água”). Há ainda Alice, que pode ser aquela mesma de Lewis Carroll. Como não ser, se está até num dos títulos: “Sobreaviso para Alice em seu país”? Que assim se inicia: “Alice, se tu soubesses como o teu mundo é pequeno”. E assim termina: “Tudo de tal modo pequenino que, apenas tu, podes saber, Alice, que atrás do espelho existe apenas o papelão”. Será uma recriação dela? O Poeta de Meia-Tigela fala em ressurreição. Sim, alguns escritores criam, matam e fazem ressurgir seus seres ou suas criaturas: “Que das palavras emane / A morte desse Antoine / E sua ressurreição:” (são os primeiros versos do poema-posfácio).
Ângela segue à risca a lição de Guimarães Rosa: a estória não quer ser história. Quem dirá que “Da anatomia de um enganado” (narrado por mulher) é conto? Calou não é uma regionalista e não faz questão de ser (ou parecer). No entanto, tal como o Graciliano de Angústia ou São Bernardo, não renega o vocabulário nordestino (ou português antigo), e expressões populares: “calças pegando marreca” (p. 24), “homem muito resolvido” (p. 30). Não tem preconceitos desse tipo. Também não se peja de recriar frases de Guimarães Rosa, o mais nordestino dos escritores do sudeste brasileiro: “Claus desaconteceu de repente”. Ou de aspirar enredos da literatura clássica. E ainda vai e vem num bamboleio de frases supinamente inventadas pela poesia guardada na memória. Além disso, de vez em quando, larga umas frases que nos pegam de surpresa: “como um guarda-chuva que esqueceram de perder”.
A narradora de “A teia e a aranha, mosca distraída fui” faz um passeio pela tradição literária do amor: Sofia e Capitu, “aquela náusea alegre que se quis chamar amor” (a lembrar o lírico Camões), a flauta e os ratos da lenda germânica (artes do encantamento), Der Blaue Wittelsbacher (o diamante azul de Filipe IV), “ofereceu-me uma maçã” (Branca de Neve). O que demonstra (mas a contista não faz questão de comprovar nada, erudição ou conhecimento literário) aguda percepção das entrelinhas das lendas, da história e da literatura.Os protagonistas e narradores (masculinos e femininos) de Ângela são todos enigmáticos. A de “Antoine voltou a pé” lamenta não ter “quebrado as duas pernas” de Antoine, no “exercício de minha maldade”. Esse Antoine aparece de novo em “Há coisas que devem morrer”, que assim se inicia: “E assim morreu Antoine”.A morte está presente em quase toda a obra de Calou. Em “Marca d’água”, a mãe da que narra se suicida: “Eu tinha quatorze anos quando mamãe furtou-nos de sua presença” (...), “naquele dia de luz nenhuma” (Rosa). Nessa narrativa curta (pouco mais de duas páginas) há diversos personagens, todos com nomes explícitos, o que é uma marca de Ângela.
Em “A teia e a aranha, mosca distraída fui”, Carlile é um vendedor ambulante, um mascate, desses que andavam pelos caminhos, a pé, montados em alimárias ou em carruagens, um cigano, vendedor de sedas, sabedor das artes do encantamento, prontos a seduzir meninas, adolescentes, donzelas, mulheres sonhadoras (“aprendi a desaprender meus modos de menina”), com ofertas de maçãs (Branca de Neve) e outros mimos. “Quando Joana enlouqueceu” (...) Assim se inicia “Joana em dia de seu avesso”, a lembrar aquele poema célebre do mineiro Alphonsus de Guimaraens: “Quando Ismália enlouqueceu, / pôs-se na torre a sonhar...” Até que (é o desfecho) “ateou, distraidamente, fogo ao próprio corpo”. Em “Naquele tempo, naquele lugar”, o que narra se refere a “ciclope adoecido”, “demônios incautos”, “errantes desapressados”, “um homem de roupa preta e pés rachados”, “o retratinho do noivo enforcado”. Nenhum nome de ser fictício é mencionado. Como num sonho interminável.
O conto do título da coleção é narrado por um homem que não lê Górki, não tem coragem de ler o escritor russo: “Eu tenho medo de Górki”, afirma de chofre, logo no início do escrito. Mas, logo adiante, se justifica: “Eu tenho medo de Górki, e nunca vou lê-lo enquanto estiver sozinho, à mercê do deboche de todos os meus fantasmas reunidos sob o vidro dos meus desafetos”. É um assassino, um arrombador de casas, um louco. Confessa-se: “Sou eu o arrombador”. Sua nova vítima é Dóris, que “tem trinta e cinco anos e é manca da perna esquerda”.
Ângela não pratica o que chamam de “conto fantástico”. Entretanto, em algumas ocasiões, vai além do normal, do real, do razoável, como em “Do oco no meio das falas e coisas”. O narrador confessa: “meu pensamento vazando para fora, e todo mundo vendo”. Ora, quem vê pensamento? As falas (do paciente e de seu interlocutor, médico) se intercalam sem qualquer indicação. Quem mais fala, é claro, é o ‘doente’, que até ironiza o médico: “O senhor, doutor, é um técnico. Que posso eu contra palavra de um técnico?” Na verdade, a contista aboliu completamente certos cacoetes (não só nessa obra), como o diálogo com travessão, verbos dicendi ou aspas. Como se diz, vai direto ao assunto, sem lengalengas, sem quiprocós de quem só sabe contar história (quando sabe).
Não consigo ir além disto (já me sinto em sonho imaginário ou em plena desrazão). Preciso reler os enredos fugidios de Ângela Calou, se quiser me manter real e razoável.
Fortaleza, 3 de outubro de 2011.
(Publicado originalmente no blog:
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/2011/10/angela-calou-e-captura-do-fugidio-nilto.html, postagem de 04-10-2011)
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