Poema pr'Alice

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Por que ela ou ele não sou eu? - pensa Alice, louca, mendiga, caída, sete anos no sinal, caçando com baladeira esmolas, limpando vidro com a pele, levando o cuspi do nojo implício de cada Não.


Por que ela ou ele não sou eu?
Cheguei atrasada quando o Coelho brincou de Chronos com meu relógio? - pensa Alice vestida de estopa, toda farrapo, sem chão e um vão de sombra pra descansar, toda ela madrugada no entremeio do que poderia e do que nunca será.


Por que ela ou ele não sou eu?
E se eu piscar forte posso de repente acordar com seus olhos no meu lugar, ser vista sob o brilho prata de seu globo ocular? - pensa Alice, pisca Alice, mas nada acontece, e continua aparição.


Por que ele ou ela não sou eu?
E há uma rainha vermelha e outra branca, e outra arco-íris e um chapeleiro anunciado em cada volta desse campo concentrado? - pensa Alice enquanto recolhe em gozo as moedas das criancinhas.


(Alice tão criancinha. Enaganada por todos, em seu gosto do mesmo e do outro.
Alice devia morrer, sufocar-se com o ouro de seus cabelos enquanto dormisse)


Por que ela ou ele não sou eu?
Pergunta Alice, resvala Alice, afunda Alice, proto-adolescente imaginária, toda sub-solo, sub-sonsa, sub-sombra, sub-lunar.


E perigosa na experiência do pensar, em cada gota de revolta ressequida, em cada grito dito ao avesso, num desditoso e solitário andar por entre a gente míope que em tempo, mundo ou espelho algum poderá vê-la.


(Foto: Bruno Vilela: Bibdi Bobdi Boo )

(Stirb nicht vor mir, Alice...)


5 comentários:

Rafael sem h disse...

Alice...por que, ela, Alice?
Será pelo nome fatídico ao poder e desejo dos que aliciam? Ou por atrair por radical a malicia e mal?

Alice...e cia...
Ali... até quando? Até quanto?

; (

(Adorei o post...Mais coisas de Alice...sob tua ótica. Junto a mais coisas de Alice, sob a minha ótica. Mais a ótica alheia de quem quiser pensar. Se juntando tudo vai ficando mais triste, saibamos que, mesmo assim, tudo não vai passar de fragmentos...
Tentemos imaginar o todo então. Alices, por elas.)

Ângela Calou disse...

Quem sabe seja a pequena, a mesma daquele pai-drástico, que cansada da intervenção sobre o corpo torturado, erra o caminho do espelho em sua fulga apressada e de menina...(que pelo menos se possa variar o tipo de tortura!!)

Sabe o que é pior? É ver gente subir vidro com mão e tudo, ao exato instante em que profere em tom severo: "nossa, isso me constrange! [???] ver alguém assim me constrange! [???]".

Ali...ce[se]...mente.
Ali...ce[se]...cala.
Ali...ci...lada.
Ali...ce...rrada...em seu circunstancial.

(Volto nunca mais ao Lá Na Praça do Crato: coisa terrível se expulsar uma criança com a mesma fúria com a qual seria expulso um veterano do crime...a moça-expulsadora nem percebeu que o menino tinha uns 8 anos...apenas...:expulsa-a-dor. Ali...ce..gou-se o peito. A mesma que expulsa o menininho, é enjoativamente carinhosa com o outro menininho arrumadinho da mesa do lado que brinca com sua espadinha...é que a roupa suja do primeiro cobria completamente a sua infância para aquela senhorita... ¬¬')

:(

Para um verbo partindo disse...

Então Alice, cansada de não ser nem ela para ele, nem ele para ela, nem ele para ele, nem ela para ela...sentou num banco sujo de praça e foi l-e-n-t-a-m-e-n-t-e invadida pelo relógio-farpa-perfurante, que lhe levou os sonhos.

p.s.é sempre o nosso segredo.

Ângela Calou disse...

[...]

†† ÐART VAMPIRE LINCOUT†† disse...

"Por que ela ou ele não sou eu?
Pergunta Alice, resvala Alice, afunda Alice, proto-adolescente imaginária, toda sub-solo, sub-sonsa, sub-sombra, sub-lunar."

E que troféu levou-se o fel que por fim tomou-se o Chronos de A-li(ce)-a-se, ali-c(e/i)-ada na imanência do pensamento Tênue do com-prometimento da sua alma!?! e o sujo se torna-se limpo e o limpo torna-se-á Sujo, na mente de quem o vê.

My lady (F).