Escrita sem medo - por Henrique Marques-Samyn

sexta-feira, 13 de abril de 2012






Górki por Nelson Mielnik


Ângela Calou é uma jovem escritora cearense; Eu tenho medo de Górki & outros contos é seu livro de estreia. A obra reúne pouco mais de duas dezenas de narrativas, que variam na extensão e na temática. Alguns dos contos são melhor acabados; outros mais se assemelham a exercícios ficcionais − o que não é um demérito. Ângela experimenta, arrisca-se, explora a linguagem com notável desenvoltura. No prefácio à obra, Tércia Montenegro, ela mesma contista, assegura: “Ângela Calou já encontrou seu estilo, neste livro de estreia”. Embora a afirmação me pareça algo temerária, sendo a autora ainda jovem, é fato que está muito próxima disso. Sua escrita tem ritmo, variação léxica e vigor estético. Ângela, sem dúvida, já nasce contista − não aspirante, como os tantos escritores que mais tarde renegam suas primeiras páginas.


Todavia, o que me parece mais importante é o fato de Eu tenho medo de Górki & outros contos denotar uma evidente independência. Ângela não faz concessão a modismos, afetações desnecessárias ou forçosos artifícios; pelo contrário: sua escrita é despojada − sobretudo, isenta de certo vício intelectualista comum nos jovens contistas de hoje. Não que não haja, em seus contos, referências culturais: já o título do livro evoca um dos mais importantes autores oitocentistas; Ângela cita Cézanne, Beethoven, Walter Benjamin em epígrafe. Essas citações, entretanto, respeitam a economia narrativa, não soando gratuitas ou pedantes. Para além disso, se os contos eventualmente resultam algo herméticos, isso parece menos atribuível à intenção estética do que à busca temática à qual Ângela corajosamente se lança − e que é, a meu ver, o ponto em que mais nitidamente se percebe o teor inaugural do livro.


Eu tenho medo de Górki & outros contos é uma obra auspiciosa − a abertura de um horizonte literário em que ainda há muito a ser construído. Ângela, contista de talento, arrisca investidas, tateia motivos, acerca-se de universos temáticos ainda não de todo definidos. Por vezes, parecem eclodir alguns temas recorrentes, possíveis indícios destas ideias fixas que obcecam os escritores: as perdas, as despedidas, os abandonos. Contudo, quem sabe por uma propensão filosófica, ela ocasionalmente conduz a narrativa para instâncias abstratas, quando poderia insuflar nas palavras a matéria vivida (o que, desnecessário dizer, nada tem a ver com a exploração de referências regionais: Lewis Carroll, de quem Ângela toma Alice por empréstimo, não se referiu concretamente a mundos imaginários?). Se, de fato, será esse o melhor caminho, apenas a escritora poderá decidir. Ângela Calou já abriu as portas de seu universo literário; cabe-lhe, agora, o desafio de − sem medo − sondar seus recantos.



(Publicado originalmente em http://clavecritica.wordpress.com/2012/04/09/escrita-sem-medo/, 09/04/2012)

8 comentários:

Denise Scaramai disse...

Ângela
adorei as renovações em teu blog! Está muito lindo, claro e objetivo.
Sinto um amadurecimento apropriado!
Deixo um enorme e caloroso abraço à você!

ps: ainda não li essas últimas postagens...

O POETA DE MEIA-TIGELA disse...

Calou só sabe o arremedo
De si: tão própria que o "Górki"
Também só de si extorque
A palavra. E o faz sem Medo.

Pedro Ernesto disse...

Olá Calou!! Meu nome é Pedro Ernesto, sou amigo do Poeta de Meia Tigela, e gostaria de lhe agradecer pelo seu novo livro de contos. Lê-lo-ei (Leloei?..rsrs) com toda atenção!!

Se quiseres, eu lhe convido a visitar meus seguintes endereços poéticos:

http://almadesonetos.blogspot.com.br/

http://poetalmocreve.blogspot.com.br/

http://www.recantodasletras.com.br/autores/pedroegd

Um forte abraço!!

Pedro Ernesto.

Pedro Ernesto disse...

Oi Calou!! Esqueci de dizer uma coisa: eu tenho uma colega minha que se chama Thaís Calou de Holanda e ela também é de Juazeiro do Norte. Ela é formada em arquitetura pela UFC. Talvez vcs sejam parentes e nem se conheçam..rsrs

Um forte abraço!!

Pedro Ernesto.

Revista Pechisbeque disse...

Até hoje guardo resquícios desses contos impregnados em minha pele, em minh alma...

António Jesus Batalha disse...

Olá Angela, gostei de seu blog e desde já quero dar-lhe os parabéns, Sou Antonio Batalha portugues e gostava de lhe fazer um convite: Tenho um blog Peregrino e servo, e se desejar fazer parceria me deixava muito honrado em tê-la como minha amiga virtual, claro que vou retribuir. Obrigado e tudo de bom.

Isabel disse...

Sucesso mais que merecido!!! Um beijo, Angela!!

Tarcízio Neto disse...

Ela não é aspirante como outros que depois renegam suas primeiras páginas? Coitada dela se nunca criar o juízo necessário para um dia abominar esses escritos mal feitos que qualquer um com um minimo de sensatez renega de início.