Um brevíssimo comentário...
“Quem faz um poema salva um afogado”...
Diz Quintana, num verso pleno de implicitude.
Um fio de significação furiosa que traz em cada ponta Vida e Literatura, dadas como um par no lance de dados da infinita deveniênscia, – talvez seja isso o escritor: esse fio cambiante e nunca completamente determinado, reinventado para sempre à sombra e à luz da letra e do ser.
São como pulmões comprimidos que vomitam o ar abafado da mudez produzida pela “gorda saúde dominante”, tirando da boca o gosto bolorento de uma compreensão vulgar das coisas da vida, e o elástico sorriso de quem por vez nenhuma arriscou um olhar bem dentro dos olhos do Absurdo, – sinônimo dessa mesma Vida em gente como Kafka, Camus e Beckett.
A literatura é um livro aberto: um devir que, como quis Deleuze, não representa a imposição crua de uma forma estanque ao vivido, mas um olhar livre sobre este, sendo, portanto, um dado vivo em processo, e processo englobante, que forja a partir da linguagem a desconstrução da própria linguagem, – a dominante.
O escritor inspira “o irrespirável”
[1], para em seguida processá-lo, oxigenando-o e oferecendo-o como atmosfera redentora àqueles [afogados] que aceitem o enfrentamento de sua leitura. Persegue como caça as letras postadas entre as linhas paralelas da vida, e lendo-as, constrói sentidos
[2] tirados das bordas da pele de um eu que sendo impessoalidade é, não obstante, singularíssimo, como sugere Deleuze em sua consideração sobre isto.
Decifra, pois, o código das combinações infinitas, percebendo a retidão de cada signo oferecido à lisura do papel, às curvas da paisagem, à coisa em si de seus olhos de cão hilstianos... E logo, torna-se exímio na arte incerta de encontrar nos corpos, nos gestos, no silêncio, no escuro, nas cores, nos ventos e castelos e canções, o estranho reino de nossas possibilidades, cuja ordem não é outra que não a do imprevisível. Desliza como um gato egípcio na vertigem do vivido, e nada lhe é blindado à perscrutação, pois a literatura, no devir que lhe é próprio, entremostra relações e não um presumido fundo essencial do avesso do que se vê. O escritor veste, portanto, completamente sua condição, e acompanhando Lispector, diz-se, pois: que escrevive!
A escrita é ainda mais compulsiva quando a circunstância transforma a vida em elemento descartável, o humano em massa, o poder em violência. Urde assim outros modos de sua representação.
Se faltam o cálamo obliquamente talhado e o papel em suas ligas fibrosas de hidrogênio, há spray e muro limpo esteticamente fácil tornado convite à criação, imediatamente transmutada em transgressão esteticamente indegustável. Sim, imediatamente, pois se escapa talvez à sutileza da mínima demora sobre o pichador, e é essa ausência de um ver sintético para além do olhar prosaico, o impedimento de uma reinterpretação da pichação, fazendo da leitura de Tiburi uma golfada de vento frio na cara: encara-se o pichador e se lhe pergunta de onde vem?
Transgredir é violar. Escrever é (re)significar. Há de haver, na ‘transgressão’ do pichador o significado de uma escrita. Pichando o pichador resignifica a própria transgressão: o muro branco, intocado, virginal transgride a condição do poeta-pichador, que responde com seus signos quase sempre assimétricos e gramaticalmente desequilibrados, mas invariavelmente denunciativos e reveladores de uma subordem vinda a reboque à lógica do capital – a ordem da exclusão.
A beleza inalterada do muro viola o pichador, e essa violência em branco guarda além de um sentido artístico, um profundo conteúdo político. Evita-se encarar o pichador e seu fluxo fraseológico plasmado no concreto das paisagens, prefere-se, pois, o bálsamo do esquecimento, as mínimas "pílulas obliviantes". E assim, continua o pichador em sua arte solitária das noites em fim, como um estrangeiro em seu próprio estado, olhando dentro do absurdo, vivendo o absurdo, respirando o absurdo e sendo, paradoxalmente, condenado ao expressá-lo.
A escrita nunca é gratuita; é preciso, portanto, desconfiar, pois se toda a literatura é “um empreendimento de saúde”, há doença incrustada em alguma parte. O poeta-pichador é o escritor anônimo de um social anômalo, e é no espaço do branco estético da fachada que ele denuncia uma cidadania de fachada, mostrando que um coração pulsa em seu pensamento – malha fina de caçar borboletas quase nunca considerada.
[1] [Dostoievsky no transe de Raskolnikov em ruas ignóbeis de São Petersburgo. Borges no ódio de Emma Zunz em uma vingança cheia de cuidados mínimos. Kafka e o desconhecido para Joseph K ou o inesperado para Gregor Samsa. Flaubert na frustração de Emma Bovary que arranca para sempre à infância da razão a consideração pensante de um feminino talhado na pedra a golpes de foice espargidos do medo dos homens... e quantos mais!]
[2] [Sentidos enevoados que façam ou não qualquer sentido].