sábado, 21 de novembro de 2009

...eu desenhava estrelas imaginárias no escudo da noite, negro e impenetrável, e não guardava números na memória, e procurava o refrigério do vento, o silêncio do desapego, a moral dos pecadores, o encanto da excrescência, a verdade e o abismo, o sentido e sua negação.
Sei apenas que me sobrou um cata-vento, deixado ali não sei por qual mão sobre meus livros novos. Que faria com ele? Com suas cores e seu modo particular de girar o mundo? Não sabia. Voltei à casa, agora uma estalagem no vértice da cidade.


Perguntei ao porteiro o ano em que estávamos... – Voltamos a 1914.
Treze voltas no estômago, duas borboletas saltadas da boca.
Tantos anos em treze dias...

domingo, 15 de novembro de 2009

Yudi

(As desórbitas do avesso - Antonio Augusto Bueno)

Nunca sei a medida exata das coisas. Por isso tanto silêncio, um dado que não se entrevê, fora dos limites da percepção e da intelecção, judicalmente imaterializável. Não sei dosar quando ir, quando ficar, quando sustentar o olhar sobre você ou quando escapar de seus olhos com medo, numa velocidade próxima à da luz. Não sei a hora das palavras, ponteiros para mais ou para menos sempre: quando o seu reverbero ao outro que se põe? Quando a clausura original da garganta? Vim sem talentos de medida, não sei medir, e por isso agir e decidir e escolher. Às vezes me assusta ficar sozinha comigo, com esse frio mais subjetivo que da estação, com essas luzes que parecem estrelas em um grau mais pobre, ou gliter sobre papéis coloridos, com essa minimariposa sobre meu braço direito como que a escutar as voltas de meu pensamento secretamente. Tenho preguiça de expulsá-la. Parece quieta, como se concordasse comigo. Será que dorme? E eu que não falo sua língua, nunca saberei de seus segredos pequeninos. Eu mesma digo às vezes em acessos de filosofia-de-botequim, que não há mais segredos, pois há que se ler nos gestos e paradas súbitas, nos Castelos e nas canções, nas bordas da pele e nos pequenos instantes de Verdade caídos dos corpos, muito, muito raramente. Sonho fácil. Canso fácil. Amo fácil. Riu difícil. Acordo difícil. Leio difícil. Há séculos não termino um livro, talvez Kafka me possibilite mais uma vez tal façanha. Das Schloss, o burocrático, o buRRocrático. O que sei é que é sempre assim, melhor mesmo não se arriscar, melhor mesmo não se atrever, melhor que não se tente o salto, pois na analítica desse esporte radical, não vejo outro que não a queda como implicação imediata – violenta, aterradora, como tomar água de coco à sombra de um pé de desvario. E talvez sobre esse Hegel das segundas e quartas-feiras, eu tenha apenas que concordar que todo fim está no começo, como as desórbitas do avesso.

domingo, 25 de outubro de 2009

Dias de capinagem

["Liubliú", poema anel de Maiakóvski, um singelo "Amo" feito poema no tomar e repetir das letras iniciais de Lília Iúrievna Brik...(L+Iu +B+ L+Iu) - versão tipográfica de El Lissitski (1923)]


O casaco tricotado de Antoine...

Antoine, quando cheguei, já havia morrido há muitas décadas. Voltamos, porém, 70 anos, de tal sorte que o encontrei vivo, metido em seu casaco tricotado e colorido. Logo ficamos amigos, mas era coisa muito ao nosso modo. Apenas não nos queríamos o mal, e olhavamo-nos com muito carinho por entre os corredores da estalagem. Quando em hora do almoço, as batatas eram-me passadas por suas mãos. Desconfiou da inversão do tempo ao ver entre minhas coisas, os livros da Biblioteca com sua estética futurada. Se os abrisse, veria a data determinada da entrega, e assim, descobriria o giro da ampulheta. Debaixo da escada havia um abajur sobre uma mesa ovalada, pequena e marrom, há muitos anos pertencente aos estalajadeiros arrebata que fora em um antigo leilão. A mesinha era iluminada pela luz quase sumida do abajur, e quando se queria ler era para lá que se ia. Num desses dias, fui surpreendida por Antoine, com uma caderneta amarela nas mãos anotando frases soltas de seu pensamento. “O único respeito devido, é entre nós”. Ouvi súbito no limiar do quadrado. Assustou-se, enfiando num bolso interior do casaco o objeto de suas considerações. Condiria com meus modos para-dentro, retirar-me ao vê-lo, rossar os dedos talvez, nas sempre-vivas-sempre-mortas do jardim dos fundos. Naquele dia não era o caso, porém, pois às vezes os olhos tomavam um ar desafiador, e nada temiam em sua exterioridade. Café? Não, Antoine. Obrigada. Sofro de enxaqueca, cafés, doces e muita luz são coisas que preciso evitar. Chá? Temos chá nessa época do ano? Por que não senta? A pergunta vinha de alguém que olhava para o chão e titubeava, embora fosse certamente o caráter mais irretocável que conheci em belas considerações sobre os devires da vida, não me deixando atrever-me à suposição de qualquer intenção. Sabia eu, porém, que Antoine tinha o coração simples, e que por isso, era bom, não havendo perigo possível naquele colóquio. Sempre desejei a solidão de nossas idéias, mas a estalagem com seu infinito movimento de hóspedes passantes, nunca havia antes permitido. Se o tivéssemos forçado, todos perceberiam. Antoine e eu preferíamos, em segredo, a determinação do acaso, como naquele dia embaixo da escada.

A cicatriz...

Havia na mão de Antoine uma cicatriz. Descobri depois, ser apenas uma marca de nascimento, sinal de reconhecimento de espírito sutil. Antoine às vezes não me entendia, eu tinha de repetir as coisas, mas não me irritava por isso. As coisas com maiores determinações e portanto, mais complexas, podia ele entendê-las num rápido passar de olhos, aquelas simples, porém, olhava para cima, piscando os olhos devagar até entendê-las. Esquecia coisas por todos os lugares. Perdia coisas por todos os lugares. Tinha os cabelos em forma de espiral e olhos muito negros que me lembravam uma criança. Penso que foi por isso que me apaixonei por dois ou três dias pelo moço do terceiro quarto: os olhos nigérrimos e as mãos difíceis de descrever eram de um menino que saltava do corpo de um homem belo, ao modo helênico. Adorava sua voz. Com ela tudo se podia dizer. Não tinha receio algum se perto de Antoine, e foi assim por três dias. Mas depois, veio o começo do mundo e as implicações do tempo, e tudo evanesceu, como o que sobra do copo de água que se joga à calçada quando somos viajantes e paramos em porta alheia para matar a sede da andança. Não chorei por Antoine, mas por deixar-me mover por um corpo e sua força estranhos à minha autoridade interna. Não era coisa pensada, era o que tinha de ser. Antoine preso à escada para sempre. O amor significou nada mais que ter a ocasião de machucá-lo, e ainda assim não o fazer. Saudades de olhá-lo apenas, sem atrapalhar, porém, sua imersão distraída no mundo.


(Fragmento de algo maior...)

sábado, 24 de outubro de 2009


"vai lá, sonha doce e encanta os gnomos no 13 paralelo..."


(aprendendo a roubar as coisas que já me são...)
...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A ação grita
A palavra sussura
O silêncio ensurdece


(Obrigada Arsênio)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A camponesa de nobre coração que vai todos os dias ao poço pegar água

(Jean-Baptiste-Camille Corot: “Pensive young woman” )

Não conheço Monteverde, meu senhor. Menos ainda o século por ele aberto. O que conheço é apenas este poço, em seu redondo-ovalado, na água escura que nos reflete antes do escurecer, nos caroços de frutas deixados aqui pelos pássaros que voam para onde não posso saber. Se quiseres, meu senhor, haverá ao pé de tua cama, um pequeno violino, embora eu lhe adiante que são demais para os teus dedos... Tinha de dizê-lo, pois talvez os machucasse enfrentando as cordas...e assim, eu teria de beijá-los nas pontas para que sarassem antes de o sol se ir. Não toque desse jeito a minha face, não a toque, já disse. Fique aí, do outro lado do poço, pois o poço já foi feito para isso. Não se aproxime, não fale, deixe-me apenas, e assim, talvez possa eu recolher o que cair de seu corpo ou de seu pensamento, e guardá-lo por um tempo de contentamento numa caixinha delicada e madreperolada feita em Istambul para guardar as feras que nos habitam...não seria uma alegria nas tardes em que eu viesse levar do poço a água, abri-la com gotas de temor inflando os olhos?... Vou-me embora meu senhor, e amanhã virei pegar mais água...todos os dias virei, prometo-lhe.

domingo, 6 de setembro de 2009

Neverland




Seria um condado anestesiado, com monólitos imensos e blocos de vida amorfa. As pessoas teriam gosto de farinha de milho estragada na boca, e a pele seria pesada e adoecida por falta de sol e brisa. Ora, teríamos pilhas de papéis cheirando a mofado, contendo a lista infinita dos conceitos possíveis. O estatuto ontológico do ser, o princípio de razão suficiente, a natureza essente das coisas do mundo...sim-sim!, tudo isso teríamos em dispositivos fabulosos, hábeis na produção do cerco à vida...mas o mundo mesmo, as coisas e o ganido forte do que é vivo, isso não caberia numa Cidade-sem-poetas.


Uma cidade sem poetas nem mesmo um nome teria! E todos os dias seriam o mesmo dia, e todas as horas, apenas mortificações em 60 minutos. Os sinos das igrejas parariam de trabalhar e os anjos-meninos, escondidos nas nuvens de chuva, marchariam em retirada. As nuvens e a chuva fariam o mesmo... Os encontros entre amigos (de fato, é apenas uma suposição essa coisa de amigos numa cidade como esta) seriam sinistras emplastificações de sorrisos, reconhecidos por códigos de série colados num molar esquerdo, e nem com o mais potente instrumento de auscultação o coração de tais homens e mulheres deixar-se-ia perceber.


As pessoas seriam como máquinas de vender coca-cola: uma moeda e um botão; e as crianças conversariam sobre o câmbio e as taxas reguladoras da política de redução dos recolhimentos compulsórios sobre os depósitos bancários. As aquarelas e o arco-íris teriam uma cor apenas, e poder-se-ia, finalmente, banhar-se duas vezes em um mesmo rio. As moças comprariam seus príncipes em 12 vezes, na mesma loja onde suas mães lhes compraram há alguns anos o sonho desse mesmo príncipe. Nos circos os palhaços teriam o rosto limpo, havendo a hora certa para rir, indicada no catálogo da programação do espetáculo vendido junto ao ingresso.


Ouso dizer ainda, que nessa cidade, as avós fariam apenas miojo para o almoço de domingo e que o único vestígio de música seria o som dos pés nas ranhuras do asfalto quente e insondável das ruas... Nem me atrevo a falar do amor, pois sem poetas, ele seria um deslocamento constrangido, e não tendo a quem inspirar logo sucumbiria num frêmito exangue de solidão. Numa cidade sem poetas seria barata, prática e segura a ordem instaurada da monotonia, com seus cálculos infinitesimais sobre seres de finitude...


E então, não se leria Rimbaud, Pessoa, Quintana, ou João Cabral...e desse modo, nunca a eternidade no mar misturado ao sol, nunca o humano em demasia nas portas da tabacaria, nunca a salvação por letras de um afogado, nunca um Severino entreaberto com a ponta de dedos aguerridos... Nunca um arriscado gole na sede do estranhamento que é ser... pois poetas não haveria, e nem tristeza ou alegria, apenas o fato cru – empobrecido, biológico, redundante.




(Falei sobre esse post para o Arsênio, ao que ele me disse hj: mas Ângela, aqui não tem poetas...!!)
(p.s.: restrição aos poetas épicos em Platão, esses, apenas esses deveriam ser expulsos...)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A teia e a aranha: mosca distraída eu fui



Não imagino o que aconteceu. Sei apenas que nos doze dias subseqüentes sonhei com Céu e ele morria atirado ao mar, mãos a pressionar ouvidos, que sangravam. Não voltamos a nos ver, e Céu nesse tempo reduziu-se ao porta-retratos comido nas pontas por cupins famintos que saíam de meus cabelos, instalando-se ali para sempre, na madeira podre e pobre de um enlace interrompido pelo nosso egoísmo, infinitamente maior que aquela náusea alegre que se quis chamar amor.
Convencia-me, entretanto, a lembrar-me de que era Céu. O mesmo do balanço, das maçãs-do-amor dos raros circos en passant, da lama, do rio, das calças pegando marreca, do cabelo vermelho e despenteado, da fitinha azul no pulso esquerdo. Era Céu, e isso não mudaria, pois uma verdade que varia não pode ser entendida enquanto tal.
Do que falava não imaginei, na vertigem mortificante de seu fluxo fraseológico. Vim a descobrir apenas no décimo terceiro dia, quando Carlile chegou à cidade e todos os homens e mulheres esqueceram-se de seus ofícios encantados por suas sedas, tornando-se nossa vila um desassossego abrasivo, um oco avessado de zumbis mal resolvidos. Tinha há muito guardada a flauta, faltando-lhe apenas uma platéia de ratos sedenta por cada nota solta de seu som libidinoso. Carlile e os seus sabiam das artes do encantamento, teciam com fio de ouro a Mentira que a todos enforcaria.
Como ele pudera predizer com tanta fineza a invasão do décimo terceiro dia? Céu e eu, imergidos no plasma falacioso do engano. Céu e eu, que nos amávamos, amávamos agora a um terceiro. Que digo eu? Amor é outro.
Carlile vinha todas as noites, pois sabia do mal que nos fazia. Cada gole de seu desejo como pulverização do intocado escondido à sombra da face. Quando todos dormiam ressacados do dia, do escuro ela surgia. Céu e eu, mudos e enublecidos, assentíamos em nada dizer, e ela, Carlile, ria, tecendo o laço com seus novelos invisíveis, na conta certa para presas pequenas. Seus olhos eram como os de Céu, blindados à perscrutação. Mas eu escorreguei por eles como um gato egípcio, pois guardava no bolso direito o diamante finíssimo que arranharia sua proteção, Blau Wittlesbacher, alotrópica de carbono real caído das mãos de um anjo bávaro distraído, acampado desde janeiro nas nuvens do vento leste.
Aprendi com Carlile a dar quase nada de mim às pessoas, a enfear meus olhos ao olhá-las, pois tudo que me diziam era engano areento que o vento levava, como a areia que fica nos pés quando se caminha na praia. Aprendi a desaprender meus modos de menina e a sempre desconfiar. A sentir de sentimentos e intenções prévias com o toque das mãos, com o cheiro e a ponta da língua, e o mundo tornou-se assim um dado de desapego. O outro, o perigo em forma de gente.
- Que escondes, Carlile?
- A certeza de nada esconder...Não sabe ainda já não ser segredo o fato antigo de não haver mais segredos?...
Antes de entrar em sua carroça, coberta por cortinas vermelhas, ofereceu-me uma maçã. Não aceitei a tal maçã e o convite que vinha de brinde incrustado em seu sumo doce. Seria aceitar a morte da minha vontade, a coisificação de minha consideração pensante. Carlile era passado, cremado e atirado em um lugar feio como seu coração.


(Fragmento)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Da maternidade


Pequenas bolhas nos pés de Hilde Asnienberg. Raquíticos ratos roendo a roupa do rei de Roma, pensou. Não eram ratos, desses feios e imensos, eram catitos, que guardavam ainda alguma ressalva antes do golpe de esmagamento: olha mamãe, esse até que é bonitinho! Hilde Asnienberg tinha 28 anos e nenhuma vocação para a maternidade. Para o matrimônio menos ainda, pois perguntava demais, inquietava-se demais, e o pior: nada podia em termos de cozinha. Chamavam-na de mãe há sete anos, e ela: Hilde Asnienberg, olhava para aquele menininho postado à sua frente com olhos enormes e insaciáveis de informações sobre o mundo. Pergunte a seu pai, seria o mais acertado a se dizer para Hilde, se houvesse ali um pai à paisana. Esse, porém, não era o caso, e o menino era quase do tamanho da TV: sim, sim, os vermes poliquetos do fundo mar se alimentam de detritos, entendeu?, de detritos. E empurrava com a ponta do joanete o menino para fora do espaço entre ela e a TV. Não tinha paciência para essas coisas de explicações mensuradas, exatas, definíveis, preferindo apenas observá-lo quando era preciso sobre o carpete da sala, montando transformers com sua imaginação e os mesmos olhos desumanamente insaciáveis. Chamava-o para comer como as mães o fazem: senta e come pra ficar forte. Ficar forte pra que? Pra crescer e fazer coisas. Que coisas? Come. Comia. Era bom vê-los ali sozinhos, numa casa parecida às de papel. Em sua cabeça-oficina Hilde chegava à conclusão de que a maternidade empobrecia as mulheres: veja Carlito, veja só a Luíza, parece que junto com o leite lhe sugaram a vida pelos peitos, presa que está no minuto do parto, ali, sem força pra ela mesma, num tempo que passa sob horas paradas. Carlito não entendia no minuto e meio em que a fitava, antes de retornar (e com aqueles olhos, deus do céu!) para os brinquedos espalhados e assentir positivamente com a cabeça, a fim de esboçar alguma concordância. E era assim por horas, até que Hilde Asnienberg animava-se, trocava o roupão rosa por botas pretas e pulôver amarelo, e caminhavam até o parque para tomar um sorvete de baunilha. No menino vestia um gorro azul comprado numa feira há muitos anos, embora ainda muito conservado estivesse, calçava botinas, luvas e punha um cachecol em redor do pescoço. Para que mamãe? Para proteger as pessoas do frio que sai de você. E desistia do sorvete quando ao relacioná-lo ao frio, preferindo pipocas com calda de açúcar por cima como nos circos de Chapecó. Hilde não dizia, mas sem o pequeno, calaria para sempre as voltas de seu pensamento, embora Carlito, nunca tivesse, em verdade, mudado radicalmente a rotina de suas ações. Eram sempre um “nós”, nunca um Carlito e uma Hilde. Eram um nós que não precisava se dizer para se escutar, e o menino na sua pouca idade não exigia mais que isso, sabê-lo era suficiente, sem extravios desnecessários da voz bonita de Hilde. As pessoas dizem eu te amo para as pessoas que amam, Carlito. Costuma ser assim num dia bonito. Escolhem o lugar, andam a resvalar na cocheira das idéias a melhor palavra, a melhor construção. E dizem temerosas: eu te amo, com medo de que tudo mude, e que no ato da fala se desfaça o sentido do sentimento no outro que se põe de orelhas bem abertas à sua frente. À minha, mamãe? Não Carlito, a deles, aos que recebem as frases de amor sinestésicas. Não querido, eu disse sinestésicas, é coisa que se sente com muitos sentidos apenas, enquanto anestésicos são feitos para não sentir. Quero um anestésico, mamãe. Pra que precisa de um? Pra não sentir o que você sente. E o que eu sinto, Carlito? O que eu sinto?

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Algo Comigo

Os Cadernos de Malte Laurids Brigge é um livro escrito por Reiner Maria Rilke entre os anos de 1904 e 1910, período que, de acordo com os estudiosos de sua obra, aponta para as dificuldades que sobreviriam, e para aquela "crise de esterilidade criativa" que hora ou outra irromperia. Que será que acontece quando isso acontece? A tal "crise de esterilidade criativa"? Acho que aqui se faz como Rilke, pira-se absolutamente, vira-se doido de pedra em sanatório assustador. Que sobra a Rilke se o não-se-sabe-o-que lhe toma a possibilidade da escrita? Perguntaram a Clarice Lispector, pouco antes de sua morte (a real), o que ela fazia quando não estava escrevendo. "Quando não estou escrevendo, estou morta", disse. E esse "morta", pronunciado uma vez apenas, continuou rangendo quando ela já havia se calado: “morta”, “morta”, “morta”... impacientando quem o ouvia como uma porta velha, sem óleo nas dobradiças. Rilke morreu naqueles anos, antes mesmo de sua morte chegar em 1926, no sanatório assustador da Suíça. Devia não ver sentido naquela separação: um sanatório dentro de uma imensa casa de loucos. A loucura se compartibilizando, fazendo-se graus, com fita métrica em punho para medir a própria extensão. Naqueles anos arrastados, Rilke estava sozinho junto às paredes sujas e abandonadas da miséria, do feio e da morte, que com os dentes arreganhados aproximava-se dele como que da próxima refeição. Gosto do livro, da forma como Malte percebe-se sem saídas, das leituras que faz dos corpos e de tudo que esteja ao alcance da visão, que como se aponta no breve comentário que precede o livro propriamente dito, não aparece como um dado gratuito impresso no humano, mas como faculdade dificílima que deve ser cuidada e trabalhada para o bem de seu desenvolvimento. Gosto de ver Christine Brahe minando com Medo a impenetrabilidade da sala de jantar, e de Ingeborg, que ali é apenas um nome próprio... Gosto do jeito como se reporta à "mamãe", de como a descreve e do modo como sua loucura é construída no livro com letra lenta e delicada, e como nele, Malte, salpicam as circunvoluções do delírio materno. Lembra-me a irmã de Amabile e Rudah, que ainda não tem nome e que talvez não o tenha nunca, falando de sua mãe e de como desde menina ela não suportara o arranjo do mundo, até o dia na estação, quando finalmente entregou-se ao trem. E parece real, embora seja apenas estória criada nos lapsos de vida que se tem aqui e ali, dia sim, dia não, quando por fim, vemo-nos obrigados a dar continuidade à nossa puída teia de produção caseira sob pena de respirar muito mal à sua supressão. Malte é um convite a um gole da sede do estranhamento que é ser. Que se brinde, pois, em sua companhia!


A quem interesse:
Os cadernos de Malte Laurids Brigge
Rainer Maria Rilke, 1875-1926.
Trad.: Lya Luft
Novo Século - 2008
R$ 38,00 (¬¬) na Nobel

sábado, 25 de julho de 2009

Danse Macabre

Primeiro, que fique claro que tu és um completo imbecil
Não
Não temo
Nada
Além
Desse gelado-ar-frio que resseca a carne de tua boca
De um branco delicado e acidental, abissal e torturante
Feito pó (cocaína mesmo) caído das asas de borboletas
Velhas e feias de mais de um dia

Pequenos rasgos alados,
Luminosos e desconfiados
Vindos aos pares como ondas vertiginosas
Que nada me trazem e que apenas me roubam

Cegam-me para exercitar a própria maldade
E são potes infinitos dela, essas mínimas senhoras Macbeths

Deixa-me em paz ao menos por hoje,
Lençol branco com dois furos em lugar dos olhos
Que desafia a gravidade que eu conheço!

Suei frio
E esse líquido descia
Até o fim de meus cabelos
Pesando sobre o colo arranhado

Eu desafiava o nosso tempo
Preso na janela de vidro fosco

Que resta temer?
Calaste com lama a minha boca
Que resta temer?
O sangue recuou nas veias:
Mas para onde que não para dentro de ti?

Eu não posso com o mundo
Menos ainda com arsênico ou cianureto
Como podes tu

Que resta então, a fazer e temer, e supor e ser?

Rasguei como cadela imunda o teu cadáver vivo
Esse abortamento doído e autêntico rondado por moscas e secreção purulenta
Rasguei e transbordei furiosa tocando o ventre machucado de minha perdição

Queria pistas
Irrisórias, ridículas e desatadas
Queria a ti
Por meio segundo e meio dilatado de aproximação

Ando a sujar a roupa ao rolar no chão
Pois de pé não posso com meus pés em rebelião
Que ensaiam passos de dança macabra
Ando a rolar no chão, sujando para sempre o nu do corpo
Pois esse é o meio de me entreter
Esquecendo essa faca suja de terra
e enrolada num molambo triste
Que ameaça a minha vista como
a metáfora mais perfeita de mim e ti –
Tábua estendida sobre a vala muda que se fez funda
no vazar do instante que nos desfez


[Escrito ao som de Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns...
http://www.youtube.com/watch?v=_Ye03Gu2dHA]

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Happy Days

a boa terra gira outra vez
enquanto um U de cabeça para baixo
é costurado à boca
(como em desenho animado japonês)
o ar resfriado e a mudez apenas
sem precedentes
falseadamente despretensão

permaneço
olho com mais força
cego a luz das coisas
faço-me coisa
a-significada
que por não ter significado
significa imediatamente

o líquido espesso da lata de vida-em-conserva
salpica-me o rosto,
se consigo abri-la.
e tento abri-la com dedos limpos
e sonhos rotos
e um rosto bobo expatriado
inadmissível à fiscalização de fronteira do “reino das posses”

se é difícil conseguir outro verso
deve-se atentar talvez, ao fato de que o poema acabou,
assim, sem que ao menos o tivéssemos percebido.


[mais bílis negra...that's the clue!...gravura de Albrecht Dürer, Melancolia (1471-1528)]

terça-feira, 14 de julho de 2009

Para Aline - nossa petite baillarine

"Como em patins velhos e com pouca habilidade "
Passos cambiantes
Que discordam entre si
Em leves pisadelas
Sobre as linhas paralelas
Dos calos que estão por vir
Dedos parcialmente deselegantes
Bem apenas em sapatilhas
Um abismo de leite
E o deleite no espaço de um riso azul-bebê
Danço junto flutuando sem par
Gasset'ianamente a par
Do espólio da minha circunstância

Um auditório de opiniões furiosas
Levanta-se dentro de mim
Arrebentando em desordem
E rasgando com sua sombra
O fio de luz deslizante
Que vaza da janela de vidro
Até meus pés
E até meus pés parecem tremer
De frio
De som
De vida para além do conta-gotas
Caleidoscopada
Original na imprecisão dos primeiros passos
Das primeiras aulas de um ballet real

Toda bailarina é só uma atriz muda
Arrancada à obsolescência da palavra deslocada pelos arranjos de um corpo orquestrado

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Literatura e a Vida /Deleuze...Pensamento PiXação/Marcia Tiburi

Um brevíssimo comentário...

Quem faz um poema salva um afogado”...
Diz Quintana, num verso pleno de implicitude.
Um fio de significação furiosa que traz em cada ponta Vida e Literatura, dadas como um par no lance de dados da infinita deveniênscia, – talvez seja isso o escritor: esse fio cambiante e nunca completamente determinado, reinventado para sempre à sombra e à luz da letra e do ser.

São como pulmões comprimidos que vomitam o ar abafado da mudez produzida pela “gorda saúde dominante”, tirando da boca o gosto bolorento de uma compreensão vulgar das coisas da vida, e o elástico sorriso de quem por vez nenhuma arriscou um olhar bem dentro dos olhos do Absurdo, – sinônimo dessa mesma Vida em gente como Kafka, Camus e Beckett.

A literatura é um livro aberto: um devir que, como quis Deleuze, não representa a imposição crua de uma forma estanque ao vivido, mas um olhar livre sobre este, sendo, portanto, um dado vivo em processo, e processo englobante, que forja a partir da linguagem a desconstrução da própria linguagem, – a dominante.
O escritor inspira “o irrespirável” [1], para em seguida processá-lo, oxigenando-o e oferecendo-o como atmosfera redentora àqueles [afogados] que aceitem o enfrentamento de sua leitura. Persegue como caça as letras postadas entre as linhas paralelas da vida, e lendo-as, constrói sentidos[2] tirados das bordas da pele de um eu que sendo impessoalidade é, não obstante, singularíssimo, como sugere Deleuze em sua consideração sobre isto.
Decifra, pois, o código das combinações infinitas, percebendo a retidão de cada signo oferecido à lisura do papel, às curvas da paisagem, à coisa em si de seus olhos de cão hilstianos... E logo, torna-se exímio na arte incerta de encontrar nos corpos, nos gestos, no silêncio, no escuro, nas cores, nos ventos e castelos e canções, o estranho reino de nossas possibilidades, cuja ordem não é outra que não a do imprevisível. Desliza como um gato egípcio na vertigem do vivido, e nada lhe é blindado à perscrutação, pois a literatura, no devir que lhe é próprio, entremostra relações e não um presumido fundo essencial do avesso do que se vê. O escritor veste, portanto, completamente sua condição, e acompanhando Lispector, diz-se, pois: que escrevive!

A escrita é ainda mais compulsiva quando a circunstância transforma a vida em elemento descartável, o humano em massa, o poder em violência. Urde assim outros modos de sua representação.

Se faltam o cálamo obliquamente talhado e o papel em suas ligas fibrosas de hidrogênio, há spray e muro limpo esteticamente fácil tornado convite à criação, imediatamente transmutada em transgressão esteticamente indegustável. Sim, imediatamente, pois se escapa talvez à sutileza da mínima demora sobre o pichador, e é essa ausência de um ver sintético para além do olhar prosaico, o impedimento de uma reinterpretação da pichação, fazendo da leitura de Tiburi uma golfada de vento frio na cara: encara-se o pichador e se lhe pergunta de onde vem?

Transgredir é violar. Escrever é (re)significar. Há de haver, na ‘transgressão’ do pichador o significado de uma escrita. Pichando o pichador resignifica a própria transgressão: o muro branco, intocado, virginal transgride a condição do poeta-pichador, que responde com seus signos quase sempre assimétricos e gramaticalmente desequilibrados, mas invariavelmente denunciativos e reveladores de uma subordem vinda a reboque à lógica do capital – a ordem da exclusão.

A beleza inalterada do muro viola o pichador, e essa violência em branco guarda além de um sentido artístico, um profundo conteúdo político. Evita-se encarar o pichador e seu fluxo fraseológico plasmado no concreto das paisagens, prefere-se, pois, o bálsamo do esquecimento, as mínimas "pílulas obliviantes". E assim, continua o pichador em sua arte solitária das noites em fim, como um estrangeiro em seu próprio estado, olhando dentro do absurdo, vivendo o absurdo, respirando o absurdo e sendo, paradoxalmente, condenado ao expressá-lo.

A escrita nunca é gratuita; é preciso, portanto, desconfiar, pois se toda a literatura é “um empreendimento de saúde”, há doença incrustada em alguma parte. O poeta-pichador é o escritor anônimo de um social anômalo, e é no espaço do branco estético da fachada que ele denuncia uma cidadania de fachada, mostrando que um coração pulsa em seu pensamento – malha fina de caçar borboletas quase nunca considerada.


[1] [Dostoievsky no transe de Raskolnikov em ruas ignóbeis de São Petersburgo. Borges no ódio de Emma Zunz em uma vingança cheia de cuidados mínimos. Kafka e o desconhecido para Joseph K ou o inesperado para Gregor Samsa. Flaubert na frustração de Emma Bovary que arranca para sempre à infância da razão a consideração pensante de um feminino talhado na pedra a golpes de foice espargidos do medo dos homens... e quantos mais!]

[2] [Sentidos enevoados que façam ou não qualquer sentido].

terça-feira, 30 de junho de 2009

Aquiles - feito apenas de calcanhares



Um porco. Que fazia ali? E eu? O que eu fazia ali? O corpo seria devorado pelos convidados, o do porco. Sobraria a tal maçã em sua boca. Saciada a fome, todos aqueles senhores e senhoras distintíssimos, deuses despencados ali por compaixão à plebe, devorar-me-iam com os olhos. Meu chapéu quase já não cabia nas mãos, queria escondê-lo dado sua miséria, sem cor que não a não-cor do encanecido desbotado, sem nomes sagrados pegados à borda por etiquetas cingidas a diamantes; entregar-me-ia no ato, dir-me-ia sem necessidade de palavras: como uma fotografia. Pior seria talvez, expor às rapinas por trás de monóculos as grandes entradas de gente de meia idade derrubada pela Vida: portas imensas abertas que davam para o sem fim absoluto de idéias velhas escondidas debalde sob o pouco cabelo que ainda restava. Os últimos fios da resistência, esquerdistas extremados, quixotescos enamorados por nobilíssimas causas perdidas. Ora, talvez se tratasse de uma crise temporária, ‘acontece com os melhores’, dirá alguém en passant. Sim, sim. Com os melhores. Uma senhorita senta-se ao meu lado, ao lado de um desses...‘melhores’... curva-se para tocar com a ponta dos dedos o mínimo narizinho de um menino de três ou quatro anos, que espalha por todo o chão copos descartáveis – os copos que nos destinaram, copos descartáveis para corpos descartáveis...ou queriam que a todos fosse dado o privilégio de um gole sequer em legítimo cristal dinamarquês? A ricota das cabras albinas dos Alpes suíços não era coisa para todos. Circulo um pouco mais, e uma dama de muitos ares repara nos meus sapatos. Ao reparar neles, passo a repará-los também: teria ela dirigido a estes andarilhos mudos o mesmo desprezo que eu? O constrangimento é interrompido em seu momento supino por uma voz rouca de banqueiro alemão: Anita? Sim, Anita. Nada impedia que fosse Andressa, Ylana, Roberta, Camila, Larissa, mas era Anita do tanto que podia ser, suprassumida pelos brincos e colares imensos que carregava. Abraçaram-se e o teor de sua conversa embustada logo me dispersou, algo como que uma antiga amizade, um tio-avô distante, férias exóticas em ilhotas mediterrâneas, ações, aplicações, cambio, batizado, casamentos, desastres naturais, aéreos, queijos e gourmets franceses. Não conhecia ninguém ali, entre aqueles que me evitavam ou entre os pares de mesma sorte. Os olhos cansados não sabiam quem ou o que procurar, e o desconcerto virava obviedade escancarada na face, superpondo-se aos nacos de pele flácida invadida por rigorosas inspeções do Tempo. A vida há muito não era a mesma. Prof. Aquiles, é o senhor! Sim, eu, um Aquiles feito apenas de calcanhares. Não lembrei do rosto, um pouco mais de memória e mofo e o nome já me parecia um ruído próximo, certa feita pronunciado. Sim, professor! Sou eu, Eugênio! Colégio Antônio Secundo Felício de Sá, sétimo e oitavo anos, lições sobre a natureza dos números, polinômios acumulando-se no lado direito do cérebro. Sim, sim, claro...Eugênio (?)...Eugênio! claro...(?)... Um daqueles que certamente me chamavam de “tio”, “chapa”, “prôfê”, “mano”... Não, mané. Que disse Professor? Continuamos por uns minutos, não há nada a se dizer. Seus negócios não me importam como seus cálculos com um ou dois números para mais ou para menos não me importavam naquele tempo. Enquanto fala da namorada holandesa e do estágio na África do Sul, divago pelas salas cheias daqueles dias. 10 anos é mesmo coisa de um minuto apenas. Um minuto que custa muito depois. Michelle alvíssima, soberba usando Chanel. Lúcia e Ricardo entre beijos escondidos e papéis amassados na salinha do toner, colas coloridas, árvores cenográficas, figurino e fita crepe. A Sra. Garcia com seus óculos de armação quadrada e vestidos forrados por ombreiras. Será que a moda sobreviveria caso olhasse bem dentro dos próprios olhos no espelho daquela estação? Não o creio. Aliás, em nada creio, e não há nada mais mortificante que o assassinato da própria esperança. Que digo? Há sempre alguma, mesmo que minimesca, desconhecida por nós na maior parte de nossos momentos, mas surgida quando não se espera como um golpe invisível do punho esquerdo de um pugilista campeão. Esse era um desses momentos: tinha esperança de que tudo acabasse logo, de que à sala 15 do Centro de Cultura Vittorio Eskiavan, Teatro Idílio Vergueiros, dissessem “inaugurada!”, e enfim afrouxar a gravata e respirar melhor, não comprimindo o abdômen, livre estufamento forçando a quarta casa dos botões azuis. E enfim, adeus Eugênio! Ou até o próximo encontro, quando então quem sabe, serei eu a falar de uma namorada holandesa, melhor, uma inglesinha pontual vinte anos mais jovem que volta para casa de metrô num ato pseudo-espontâneo de consciência ecológica; e quem sabe, ainda, no arbítrio do acaso, um estágio-para-maiores-de-quarenta-anos numa usina nuclear do sudeste francês.

Sobre pequenas migalomorfas e antigas fotografias



Olhos de ressaca. Sofia e Capitu machadianas. Quase gueixa, meio puta oriental. Pele fria de gozo quente. Língua ressequida guardada por lábios de veneno e salvação que insinuam - do devasso ao distraído - o escândalo do imaginário. Abismo – desses onde muitos se precipitam, corpos em queda livre livres do medo da queda (até quando, porém, não se sabe). Mãos diminutas que revestem o todo de um ar dissimulado. Pés mínimos cinderelescos em sapatinhos de cristal vagabundo. Meio bruxa, meio fada tecendo escondida a própria definição. Toada angelical cantada por sereia demoníaca. Fé cega dos mouros. Areia silenciosa de desertos: movediça. Macrobiótica dada ao delírio hindu procura alhures a revelação – não sabe ainda já não ser segredo o fato antigo de não haver mais segredos. Mas que há além da forma escrita na pedra por Pigmaleão? Além da fêmea que desperta no macho a pulsão do cio? Qual a lógica de seu sentido? Que há por trás do colo macio e do pequeno coração negro desenhado sobre o grande coração púrpura? – máquina de guerra provida de modo próprio de organização, ser e linguagem, ipseidade imperscrutável, maldição, intenção imprecisa. O que há por trás do chador invisível que distancia teu rosto dos olhos do outro? Que há além do cheiro suave? Esvai-se inteira se te forem os contornos da sensibilidade? Seria o que tanto escondes a certeza de nada haver a esconder? Um dia na estrada, perto do amanhecer, o céu inteiro foi meu. O sol vazado emprestava às nuvens um tom avermelhado e na quietude irrefletida da paz celestial eu, plena de satisfação, guardei por instantes o doce sentido do insondável. O não-compartilhável, aquilo que faz a palavra falhar em sua missão, o que não se comunica e apenas se sente, a mística que ela procura nos Vedas. Pensando no sublime chego ao seu oposto nela condensado: o provocante que está a um passo do repugnante como quis Schopenhauer. Penso nela com seus olhos famintos, com sua inocência fingida, com sua escrita falaciosa, com seu ar impessoal. Im-pes-so-a-li-da-de! Seria essa sua jangada, mas até onde iriam juntas num mar tão imenso? O mar tempestuoso da vida agitado por ventos de tempo. O mar imenso que ela confunde com as águas calmas de uma piscina de pastilhas negras ao fundo.Vejo de perto o desencanto do encanto que me provoca e do alto da minha condição-limite salto sobre os seus passos como um Gulliver avantajado em cenários coloridos pelo verde-musgo da desesperança. Fui embora e embora a porta batesse com toda a força que eu tinha: sinal algum. Fui embora sozinha naquela estrada perigosíssima e tendo em mim em segredo o desejo de nela ser um desejo. Dedução lógica e tranqüila: fui embora sozinha como estarei sempre – dizem ser a sina tosca dos filhos de Saturno como eu. Fui embora sozinha uma vez ter arriscado passos de tango na sala de casa vazia.Vanglória por provocar? Que vem depois disso? Depois do enlace do século? Da foda arrasadora? Da conquista do espelho? Da invasão do espaço? Do falo intumescido? Da virilha suada? Do movimento brusco entre os corpos? Do eco do prazer no teto do quarto? A constatação do vazio? Complexo de fêmea louva-deus: a descartabilidade do corpo – sim, só um corpo e nada além do frenesi do toque – um oco e não um outro.Não sabe ela que apenas em livros as putas ganham matizes estonteantes, traços de pura delicatessen, halo sagrado, profano apreciado, boca fresca, presença avassaladora, aura mítica. Quando fechados os livros, o que fica de realidade é diametralmente oposto à ilusão das letras. “Abre o sileno e encontrareis o contrário do que ele mostra”, disse a Loucura no Elogio de Rotterdam. A puta real, diferente da literata, é feiúra e indigência, gosto amargo, debilidade, mágoa crescida, olho furado, pele morta, face extrema da desolação e, sobretudo, solidão. Mas ela é uma menina e precisa aprender sozinha. Talvez a fina camada de gelo que recobre o tom impreciso de seu corpo a isole para sempre do calor humano que faz a vida ser viva. Talvez encontre pedras coloridas no caminho de Santiago, talvez pedra nenhuma e até mesmo a “coisa-nenhuma”. Talvez não minta mais, ou na arte da mentira imponha-se com maestria. Talvez leia Emma Zunz e inveje sua coragem. Talvez prometa a si mesma nunca mais chorar no escuro a menos que saiba com precisão rigorosa o motivo de cada derramamento da seiva bruta de seus labirintos. Talvez não finja força. Talvez não admita fraqueza.Às vezes penso que como atrizes de um circo voador sumirá para sempre em um número de mágica. Ninguém perceberá sua ausência. Nada é tão estranho quanto o reino de suas possibilidades.Mas já nem interessa porque o piano docemente dedilhado ao fundo num grave violentíssimo arrebentou, calando para sempre: fazendo do silêncio uma reciprocidade verdadeira, sem laços, sem rosto, sem impressão: a efetivação da tão falada pós-modernidade-neo-contemporânea, senhores!, em sua produção em série de relações plásticas. Ela foi a prática de toda a minha teoria. No que concerne a tal teoria, aquela das relações ocas, sei bem não caber a ela filiação. Se a pequena propaga adesão a tal teoria é mais como uma provocação – dom que lhe é inato – que como uma verdade. Não nasceu como eu, caída do cavalo e descrente sincera. Guarda consigo ainda o sapatinho de vidro, a maçã envenenada e as tranças imensas de seus cabelos. E pede aos deuses em reza profunda, antes de dormir, falando baixo com receio de que se escute, o anjo azul e o cavalo branco, vindos como um par: o resgate, a redenção. Mais que puta é necessário ser mulher. Essa que não dispensa alguns predicados do feminino patriarcal, mas os transcende, como o atleta que usa a vara para saltar abandonando-a, porém, na hora certa, como condição de boa realização do salto. Os artífices da puta, guarde-os, pois vos convém, mas os veja como meio em lugar do fim último de cada passo teu: senhora meta-mulher-feminina: fêmea alfa arrasadora – sintoma decaído de séculos de dominação machista.