Eu, um escaninho

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


Dobrada a língua, dobra-se também a coluna – tal qual cipreste em fábula de La Fontaine. Verso livre, mão represada. Pesada, forjando à tinta um sentido-que, a se considerar. Mudez não é nome reduzido ao fim da palavra dita. É ausência, sobretudo, de gesto. Um aceno, um abraço, um soco. Quantas vezes, por silente e apavorada mão, negou-se o roçar delicado sobre o peito de algum amado? Quantas outras, os braços se retorceram para dentro, como grito que se abandona depois do não-estouro de algum balão? Quantas mais, formigaram as películas semivivas ao redor das unhas em resposta à contenção da violência contra faces merecedoras, desvelo de traição? Eu sou mudo, não porque não fale... mas porque não aceno, não abraço, não esmurro na hora em que isso tudo deveria ser.



[Em agradecimento ao Rafael, que tanto me disse sobre a "profunda noite secreta do mundo". http://osolhosdenarciso.blogspot.com]

5 comentários:

{Mari Gondim} disse...

Uma vontade desesperada por se fazer ver, mas que se esconde no próprio desejo de exposição.

Denise Scaramai disse...

Querida Ângela,
que palavras preciosas, neste texto!

Mudez de gestos, é coisa forte.
Magoa tanto quanto qaulquer outra mudez!

Rafael disse...

O meu maior prazer em te escrever é a certeza de que a tua resposta sempre vem em belas pinturas com esta.
Pior que a ausência de gestos é quando, na distancia dos olhos, não há escrito o suficiente que comunique o quão é mais importante a certeza que só a pele comunica, nunca há.
Mas será a pele capaz de comunicar, de saber?... É o risco, sempre há um risco.

Abraços, amiga.

Rafael sem h disse...

[ PHOTO HERE ]*

Entro,
Mágoa em olhar.
Dentro,
Me agoa sem molhar.
Vi, em ver. E isso não é viver.
Do escaninho, um ex caminho.
De mim.

*Obs:cena editada pelo medo.
Obscena e ditada pelo mudo.

Ângela calou... disse...

Mari, fosse reescrevê-lo reduziria o dito sobre os escaninhos ao seu comentário, que deduz a inteireza da idéia do post na meia imagemudez. Abraços, moça!

Denise, volta-me Guinevere, cujo silêncio é estratagema dentro do olho direito e timidez delicada dentro do esquerdo. O pior da mudez de gestos é sua capacidade elástica de sutis metamorfoses, há um dia em que se torna surdez, cegueira. Beijos, querida.

Rafael,nossa permuta secreta: há um silêncio dentro de você que ouço daqui, de dentro do meu. Abraços.

Rafa,
[...]= é tudo que posso contrafavor de você...
saudades.

GRATA A TODOS PELA LEITURA E COMENTÁRIO!