O Górki de Ângela - por Batista de Lima

quarta-feira, 21 de março de 2012



Tépido e gorduroso é o texto de Ângela Calou. Calorento, fogo de monturo, borralho. Sebosa sua metáfora. Suja de eras, balseiro de signos, coivara de suposições. Ler essa moça é um desossamento. É preciso extirpar musculaturas, atolar-se. Não se consegue tomar pé nas suas dimensões. Falta fôlego para tanta fundura. Lodaçal de possibilidades. É uma senhora madura, nascida em 1988, mas que já existia muito antes dos aluviões. E é de Juazeiro do Norte. Infeliz de quem ler "Eu tenho medo de Górki". Mais infeliz de quem não ler.

Há um buraco que ela constrói de dentro para fora. Uma explosão que intumesce as coisas, como um estômago que se instaura onde a gente pensa que nada há. Ângela garimpa as coisas nas palavras e as palavras nas coisas. Suas escavações desestabilizam os códigos e criam pulsações onde vidas se refugiam. Perversa, seu corte é feito com gume cego. Doloroso corte que vitima o leitor invasor dos seus domínios. Seu texto esburacado só permite leituras trepidantes. Não é apenas poesia em prosa, mas também uma troca de sopapos com Clarice que ousou partir mais cedo. É um texto cheio de calos, novelos invisíveis, palavras blindadas em perscrutação. Ela prospecta em desertos para encontrar oásis.

A certa altura da jornada, ela chama os mortos para o jantar no dia do avesso de Joana, uma das suas enigmáticas personagens. Quando está movida a desimpressão, encara a paz das telhas e faz chover canivetes e demônios incautos para martírio das cicatrizes. Por isso que seu choro é para dentro e tudo que por fora fica, oco se torna. Tudo vaza para dentro em contrapassos da lógica. Isso porque essa moça é um poço de rebeldia, um calabouço das convenções. Seu coração é guardado numa pochete cadeada. A fome ela guarda no congelador porque acha terrível não ter fome. Mas quando se chega ao conto "Eu tenho medo de Górki", é o leitor que se fere sobre um formigueiro de imagens. Dóris emerge como última esperança de salvação do código. A palavra sobrevive.

Em "Capricho 43" ela revela: "Eu sou o inseto sobre a cama (...) Eu sou os dois - o que observa e aquele que se abandona à medida da vista de seu observador (...) Eu sou uma frase de não-sentido". Já em "Quase uma fantasia", ela mostra muito conhecimento de Beethoven. Chega a concluir que não foi o compositor que ensurdeceu mas o mundo que de repente emudeceu. Tudo semelha a uma "ode à melancolia em fim de tardes maceradas e distraídas no mormaço da escuridão". Essa melancolia também transpira do texto de Ângela como para dizer que é a morte que abre as portas ao mundo da alegoria. Daí que seu talento é assombroso e seu mundo é como que algo despedaçado a necessitar de um ajuntamento de cacos para dar sentido ao existir.

Além da colocação da fome no congelador, Ângela ronda a cidade com os olhos cheios de sede. Mesmo assim, sua verdade é verde, a morte é branca. Ela consome a cidade e,ao mesmo tempo, dela vaza pelo oco incrustado no meio das falas e das coisas. Então ela pensa em não mais pensar, mas apenas transitar pelos "caminhos lodosos de suas rusgas internas", como quem conta grãos sem a certeza de que os está contando. Isso não impede de, escondida, rasgar as coisas de dentro para fora e brotar nelas, emergindo de mergulhos. Essas coisas são tão vasculhadas que, personificadas, a autora praticamente executa uma terapia que funciona a partir do leito das metáforas.

A leitura do mundo, feita por Ângela Calou, dispensa significantes porque seu pé de apoio está muito aquém das superfícies. As poucas vezes em que emerge dessas profundidades é para roubar as cores das coisas, numa traquinagem que estilhaça as encostas da tarde. Daí que sua escritura radical se torna encantadora. Há um singelo encanto radical que faz do paradoxo uma brisa de outubro e extrai das metáforas mais sisudas seus sentidos mais inconfessos. Por isso que o foco de suas incursões no campo do humano se fixa na fala. Ela atua no que há de mais tenso entre o indivíduo e as engrenagens sociais. Essa tensão é sua matéria prima. Acontece que as coisas também entram como actantes nesse processo.

Essas coisas são personificadas, dialogam entre si e também possuem seu código para colocar o mundo em desarranjo. É daí que nasce sua fala, como rescaldo dos atritos entre metáforas e metonímias. O corpo dá lugar á corporeidade, como uma desconfiança diante da pouquidade do que é sólido. Há um Antoine na sua vida que ousou entrar no texto, concha, molusco e boca, enquanto a sede é da narradora. Amá-lo é amar-se. É por isso que pela segunda vez ela tem dezoito anos. Antoine é o Poeta de Meia-Tigela? É o que sugere o Posfácio, que se configura como a culminância do livro. São indizeres que não deixam de dizer. São doeres que não deixam de doer. São desestórias que não deixam de historiar.

É difícil não ter medo de Górki. É uma leitura para ser feita pelo avesso. Uma transgressão precisa de uma leitura transgressora. É preciso alojar-se na estrutura profunda para encetar uma emersão de dentro para fora. É preciso impregnar-se de sombras para a conquista da mais nítida claridade. O oco que ela vasculha nas falas e nas coisas é um buraco a ser preenchido pelo leitor, é um vazio que quanto mais repleto fica, mais oco se torna. Não se lê Ângela Calou se não se usarem as suas e as nossas ferramentas de escavação. Há uma teia que ela tece, que pesca o leitor de fora para dentro, para que tudo comece pelo porão. Há uma caverna que nos engole, metáfora de Jonas, o profeta.

Por fim chega-se ao final do livro com a ilusão de que se conclui a leitura. Impossível livrar-se de um afogamento se a batalha da emersão não continuar além do texto que nos é dado. Ângela Calou abre apenas uma fenda que engole o leitor, afogando-o. A leitura é pois um desafogamento. O signo verbal parece ser incompetente para ajustar significado e significante. O referente cai numa deriva que o obriga a criar um porto para chegar. Esse dilema sugere a metáfora do dilúvio quando a autora promove um ponto de chegada. A leitura desse livro é um exercício de coragem. É preciso perder-se para se conseguir achar-se. Se Ângela Calou tem medo de Górki, eu tenho medo de Ângela Calou.


(Publicado no Caderno 3 do Diário do Nordeste, edição de 20/03/2012: http://virtual.diariodonordeste.com.br/eds/2012/03/20/D/paginas/pdf/D3.pdf)

7 comentários:

Rafael disse...

Boa resenha. E falando nisso... ainda tem o livro? É difícil de adquirir? Como se faz?

Abraço : )

Ângela Calou disse...

Tem sim, Rafael. É só tu me mandar teu endereço, que te envio. Abraços =}

Drica disse...

Parabéns pela resennha.Esta muito boa mesmo.

Hérlon Fernandes Gomes disse...

Acho que foi a coisa mais crua e mais verdadeira que li a respeito de seu livro. Excelente a impressão. Eu continuo silente diante de tudo o que eu li, não me sinto à vontade ainda para sentar e tentar traduzir para o papel os reflexos do seu livro, Ângela! A crítica de Batista Lima, com sua profusão de sensações, consegue situar a minha intimidade com o que li!
EU TENHO MEDO DE GORKI E OUTROS CONTOS vai lhe render ainda muitos elogios como este!
Mais uma vez, parabéns!
Saudades.
Beijos caririenses-amazônicos.

Ângela Calou disse...

Oi, Herlinho!! Renê e eu no Crato conversando sobre vc um dia desses... Muito obrigada por ter lido do modo carinhoso como tenho certeza que leu o Górki, bem como pela partilha de sua leitura poética. Agradeço também pela delicadeza de ler o comentário de Batista de Lima, que sim, foi para mim uma surpresa muito alegre! Grande abraço cheio de Cariri e saudade pra vc! :)

Elizângela Gonçalves disse...

Que texto horrível o desse Batista De Lima. Ele proponhe que é necessário um esforço descomunal para alcançar a profundidade da obra, enquanto na verdade basta uma leitura superficial pra ver que ela nada diz.

Anônimo disse...

É...