Sombraluzir

sexta-feira, 16 de abril de 2010


A prostituta caminhava quase lenta, quase rápida em sua arte de elucidar à língua, na gramática dos corpos nunca haveria uma Babel. A prostituta esvaziava na calçada a bolsa, em busca da menta perdida. Tudo era sonho lasso que não sabia ser luz sem sombra, menos ainda sombra sem luz. Sombraluzimento. No precipício do corpo, a desmedida de um outro; a prostituta-cinza cosia peças barrocas em seu vivo ateliê. A cidade, fumaça e ódio, já não importava, e o imperativo era agora a aparição. "Destoarei burocracias" - pensou com o corpo. A prostituta em sua desordem era a contra-ordem dentro da ordem do movimento de amortecer. Amolecia os corações mais puros, e a pureza, neste caso, era signo de idiotia. Tinham dela toda a pena do mundo. Se há reciprocidade, há relação - tinha também a prostituta toda a pena do mundo desses senhores e senhoras fraseando com o olhar; nunca centralizada, nunca justificada, sempre à esquerda sanguínea do excesso das camadas de cinismo ladeando a contorção estetista de sua condição. A prostituta, cosmopolita, entretia a passagem dos anos, desposava a si, paria a si em frações e desdobramentos na espontânea evasão dos líquidos que umedecem a aridez da vida - "tudo é permitido", lia em recortes de jornal notícias sobre crimes literários russos. A prostituta apenas dançava, mesmo que parada, e pouco importava, era ela entardecer que despertava; soberba, incrustando na carne das esposas e mães fiéis a um destino bolorento o estranho-outro-vivo-da-invasão, o outro que dizia é preciso não se render, é preciso produzir outra versão, uma sobreversão. Era a prostituta a mais bonita, mesmo que não o fosse. Era ao menos o ímã dos melhores olhos, era ao menos o ímã dos meus olhos, famintos de coisa qualquer que não clareza e distinção. A prostituta era mais que um adereço nas orelhas da esquina, era a melhor chave de leitura daquela tarde e de tudo que se perdia no intangível ocaso de minha memória. Jogamos xadrez num tabuleiro improvisado no piso, eu era um velho de terno; ela, uma mulher que sorria indecisa entre o cavalo e o peão numa partida de imaginação.

5 comentários:

Rafael sem h disse...

Arquétipos jogando xadrez! Adorei. ; )

Fazendo uma alusão a realidade, lá vai uma sucinta viagem:

...E o Bispo só olhava se deliciando com aquilo. Imaginava ela, a Rainha. De joelhos, à altura de sua cintura, no confessionário...
Trinta chibatadas e crucificá-la depois, lá na Torre. Onde ele se tornaria o Rei.
Xeque-Mate...de prazer.

Ângela Calou disse...

Xeque-mateou-me.
Boa sucinta viagem.

; )

Anônimo disse...

como sempre ótima...como sempre complexa na medida...a figura da prostituta é sublimada com razão pois ela guarda em quem a procura algo q não pode ser ruim e se resume em refúgio e prazer q acaba nele mesmo. (Dyn)p.s: seu blog foi twitado: twitter.com/rene_fernandes

Ângela Calou disse...

Que lindo, Dimmmº. Adorei, visita ilustre. Sim, algo que não pode ser ruim.... a consciência adoece demais as coisas, como diria um certo sr. russo...

p.s.: chocada, até Natuvski tem twitter???
rsrsrs

Anônimo disse...

Mas ele nem entra no twitter e nao tem nada la, =}(dyn)