Capricho 43

domingo, 30 de maio de 2010

Capricho n.º 43, "El sueño de la razón produce monstruos", de Goya (1797-1798)

A luz acabou no perigo do sono e na potencialidade de sua produção. Eu sou um inseto sobre a cama, defronte à cama a me observar. Eu sou os dois - o que observa e aquele que se abandona à medida da vista de seu observador. Eu sou burra; diante do espelho deformo minha imagem à força da igno(er)rância. As folhas que leio ocupam copas de árvores, e só. Sou capaz de ler apenas cores: bege, azul, lilás... aquele verde. Acontece porém que, hoje, de repente, incomodou-me o fato de poder ler apenas cores, e o elogio de meu espírito deplorável por inanição tornou-se uma peça de desgosto, como os músculos de um animal morto que cheira muito mal. Melancólica, protegerei meu fígado em detrimento do fogo que se deve roubar? Aturdida, guardarei meus olhos para que a minha busca não possa nunca vazá-los? Distraída, esquecerei minha alma em lugar distante, para evitar comércio com o Diabo, caso este penetre um dia minha solidão? Eu sou uma frase de não-sentido, um estalo mudo entreposto de apostos que nunca findam. Sou a impossibilidade da ação em função da pobreza de minha teoria. Sou cega, ao proteger meus olhos... Sou dor que aumenta junto ao cuidado do corpo... Sou alma entregue para sempre uma vez que esquecida. Mas hoje, alinhando meu corpo à idéia de meu corpo, arriscarei um pensamento... em pensar que nunca pensei em pensar! Não sei se serei mais ou menos feliz ao tomar consciência do espólio do mundo, sei porém, que poderei ler mais coisas além das cores que fazem cócegas no que é curva em meus olhos.

Bibbdi Bobbdi Boo - Bruno Vilela

2 comentários:

Denise Scaramai disse...

Ângela,
admiro muito a intensidade de suas palavras [sentimentos]... muito lindo.

um forte abraço menina!

Ângela Calou disse...

Denise, obrigada e um forte abraço para vc também... que pela imagem oxigena os olhos de quem se atreve a enfrentá-la...