Fotografia, um marca-páginas pra pensamento

sexta-feira, 30 de julho de 2010

30 de julho - 04:16

Hoje, logo cedo, fui menos preguiçosa que o sol, levantei antes porque não respirava bem, um oportuno pedaço de poeira obstruía a passagem do ar. E como não conseguisse dormir, andei pela casa, vigiando os móveis, que tendem a querer escapar pela madrugada. Um gole d'água, porque sempre foi assim, sempre a certeza interna de que os pequenos gesto são os melhores, de eficácia quase científica. Rondei as frestas para espreitar a rua, em sua entrega à paisagem de mistério de um céu-de-limiar. São muitos os caminhos de coração e pensamento quando como num aperto de dedos sobre as teclas do mundo, todo o resto fica assim: silencioso. Dona de meu tempo e de toda a sorte de sentiências próprias às horas nas quais é clara a falha do poder explicativo de qualquer discurso, eu, vestindo pijama, e portanto, apartada de minha armadura, fui tolhida por certa imagem presa em uma fotografia. A fotografia: à sorte, ao acaso, pouco importa. Ele estava lá.

Meus olhos, como se tivessem fome do instante alegre e precioso de sua presença, por pouco não abandonaram a face para então ser completa a proximidade, como se quisessem, mesmo que tímidos e em eterna fuga, ser mais que olhos, ser tato, tocando a imagem ser mais que visão. O resto de mim, suspiro... um adágio rompia, aquecendo-me como nunca a área da corda de sol. A imagem dele era isso... texto, gosto, gozo implícito e musicado... quase um abraço, pois. Os olhos, aqueles... que vagam por lugar nenhum, que colorem e inspecionam discreta e demoradamente. Agora, sem que ele pudesse saber, eu poderia olhá-lo por completo, como não fiz da outra vez... quando a imagem foi também movimento. Não sei explicar o porquê de minha derrama opressa sobre aquela fotografia, mas como era bom sentir na língua o sal do líquido que encarecia e dava mostras de meu afeto... Erosfilia... Coisa como querer o bem, acarinhar na lembrança, escorregando os dedos pelas voltas de seus cabelos, guardando comigo os rubis imensos nascidos dos belos passeios de sua imaginação.

11 comentários:

Mari Gondim disse...

Meu Deus, Ângela, estou completamente emocionada.
Tenho imagens sublimes de quem se foi e carregou consigo um pedaço do que eu costumava ser. As fotos... Várias estão apenas em minha mente, guardando momentos que não pude viver. Mas ouvi-lo é o que mais me faz falta.
E o texto expressou o (res)sentimento com perfeição.
Beijos.

Ângela Calou disse...

Mari... às vezes há vontade de dizer sem o auxílio mágico da terceira... de respeitar a ordem dos pronomes pessoais... de ser então explícita e ainda assim não deformar(na inversão da fórmula de um bom poeta em sua Árvore de Manivelas).

Depois de encontrar a fotografia de um amigo, que para a minha sorte, ainda posso e quero ouvir, estive feliz pelo meu achado, pela exteriorização de sua idéia em um pedaço de... tela de computador! - ora, já algo que eu pudesse tocar!

O seu comentário me remete, porém, a outra fotografia, que como a sua, é feita de mutismo e pensamento...e como toda fotografia, é anúncio de dois lados: o positivo (do afeto) e o negativo (de uma cisão)... Sobre esta, já tudo vc disse, assim nesse modo teu, que faz a noite parecer mais suave. Beijos, e obrigada.

Mari Gondim disse...

Minha fotografia também não se trata de Eros. A voz da qual sinto falta está mais relacionada à Filia e Ágape, os outros nomes do amor. É mais um sentir falta da amizade, do contato sem intenções, da pureza dos sentimentos.
É tão raro encontrar amigos assim, que não cansam, não magoam. E é tão duro perdê-los.
E sim, às vezes a terceira é dispensável. Algumas vezes simplesmente não dá pra segurar o grito.

Ângela Calou disse...

: )

Para um verbo partindo disse...

E as cordas o prendem?
E as amarras que insistem em estreitar pupilas contra imagens-pedras?... marchas lentas dedilhadas em sol...lhe dão a certeza incerta de esperar. [não o comum!]

p.s.e só tu, e só tu...!

Ângela Calou disse...

"fotografia é, essencialmente, a técnica de criação de imagens por meio de exposição luminosa, fixando esta em uma superfície sensível..."


[...]

Elandia Duarte disse...

Huuuuuuuuuum.
Que bom acordar sem febre ( nestes últimos dias, acordar sem essa intrusa em mim tem sido uma benção),tomar uma bela xícara de café e ler um texto assim... teu.
Maravilhosa forma de receber um bom dia da vida.

Gosto deveras de tua forma de palavriar a vida!

Bom dia Dona Moça! ^^

Ângela Calou disse...

Tem café aí pra mim tb? rs
Bj Dona Menina.

Everardo de Oliveira disse...

Chorei Horrores!

Ângela Calou disse...

rs

Hérlon Fernandes Gomes disse...

É sempre de uma graciosa satisfação vim beber de seu chá de palavras cheias de alma, amiga!
Essas andanças pela madrugada têm me acompanhado também.
Saudades de "tomar chá" contigo!
Beijos.

P.S.: Parabéns por todas as vitórias que vens alcançando!