Oitava Impressão: A Roda da Fortuna - Sobre os caprichos da ampulheta

terça-feira, 20 de julho de 2010


Quando eu soube que tu virias...

mudei as cores das roupas, plantei centeio no meu quintal, fiz na sacada, com giz e tinta, anúncio de bienvenu com meu francês instrumental. Escolhi por horas a melhor passagem das horas, decompondo em unidades simples o que é complexo em tua aparição... conversei com os móveis, passando ordens estritas de aos teus passos serem todos conformação. Evitei outras visitas, recusei cartas e fui grosseira ante a insistência do moço carteiro. Fingi ser Penélope cosendo, em lugar de mortalha, lençóis de sonhos em vigília em flagrante. Com a ponta dos dedos, certifiquei-me sobre a temperatura da água para teu banho, deitando na língua o que pus ao fogo, minuto depois, para saber antes de ti o sabor próprio do agrado. As essências se misturavam na sala, no rosto, nas gotas de desejo umedecendo minha sede, nos pontos de tua imagem que completavam as ruas desertas que atravessam sozinhas em mim, sem mim, o peito supostamente agasalhado.


Quando eu soube que tu irias...

estraguei com os olhos a quarta corda de meu piano. Escondi as botas, que fosse descalço! E então, pia abaixo as chaves do quarto, da casa, do mar de teu terceiro postal. Arranquei das paredes quaisquer vestígios de comunicação, e com uma pá, não muito pesada, forjei uma pequena ilha separada de todo o resto, rodeada por tubarões encomendados em um catálogo que vendia também bonecas e chaves-de-fenda. Mas não é que tu sabias voar muito bem? E que caso não soubesses, Ícaro, teu amigo de infância e de delírio, faria com que escapasses antes de as asas de culpa derreterem? Cheguei mesmo ao ponto de envenenar meu corpo, para quando em seu tomar, no último encontro de duas almas irremediavelmente desencontradas, eu pudesse quem sabe reduzir um amado à memória involuntária de um assassínio. Mas não é que, sem que eu, distraída, percebesse, trocaste o teu co(r)po de veneno pelo meu?

4 comentários:

ma grande folle de soeur disse...

Que fabuloso texto!!! Quero um co(r)po de veneno também para poder t(r)ocar!.. ;) beijos

Rafael sem h disse...

caprichos de ampulhetas...e dos movidos por tais areias.
Elogiar os textos já virou redundância por aqui...rs
bjin ; )

Denise Scaramai disse...

maravilhoso...
nem sei dizer a quantos sentimentos vc nos remete... a intensidade do amor e da paixão!
muito lindo, menina!!

um abraço verdadeiro!

Ângela Calou disse...

Obrigada Ma grande folle de soeur, ah que depois do copo, ando agora em busca do antídoto...rs.

Rafa... ah que tu já sabe, rsrsr, virou redundância tb...rs. Bjus, vizinho.

Denise, que ilustra os raios efêmeros e eternos do mundo, obrigada. Abraço imenso.