Seguimos a noite, Beethoven e eu

domingo, 25 de julho de 2010


Todo porém é entrave Todo talvez é quem sabe Todo silêncio é arbítrio Toda palavra, veredicto Todo vazio é um mundo possível e afim Todo completo, tolo funesto começo de fim Todo caminho é dardo lançado aos campos elísios do início E o início, o cego e louco abeirar-se à sombra perdida de um precipício (confundido com um jardim) Toda rosa é morte pela sede Todo amor é sede pela morte, confraria dos sem-sorte que teimam em brindar a sangue um demônio exangue treinado para m(atar) Tr(ama) ele com clareza o raio escuro da noite e a tristeza dos céleres dias, a súplice palidez do lírio e o acaso terrível das ironias Do destino Do des-ter a não tardar a evidência do(a) sim(tese) pela metade Eis a urdidura do canto das sereias que enganam e nos levam ao fundo do mar Sereno, mentem, timorato E então a quem possa inter(ende)ressar, o deslizante olor suave do afogamento Ouvido prenhe de engano-cantado que afina e que desafina As cordas Os laços As fibras de falso aço de um coração-cartolina



Eu sou tua mulher Meu corpo feito de fendas é o vir-a-ser de teu filho Em trincheiras, barricadas protejo minhas palavras Travessa de desejo incontido que apostrofou o sossego dos meus olhos, impedindo que estes, enganados por ciscos-alados de ventos de solidão, sofreassem a tormenta em forma de brisa que enquanto eu dormia veio do norte Ah que eu não sou e nunca fui forte Meu nome jamais será Aquiles, Ulisses ou Calíope Pois não há glória Não há memória Não há cálamo Não há calma Um só destino O desatino A forca A fúria O prosseguir



Decidi ir, sob a sombra da bicicleta maior que eu Vou caminhando mesmo, a pé, poupando o prazer de flutuar Eu que sou bicolor Eu que sou manco Eu que posso compreender por meio de minhas asas a sinalização invisível do céu Com minhas patas ou pernas, essas de alguns centímetros Com meu bico que desafia apenas pipocas, as mais moles, diga-se Irei, mesmo sabendo que meu lugar seja talvez uma dessas praças à luz da mão desconhecida que alimenta, sem querer nada em troca que não a leveza de meu corpo pequenino aos seus pés Irei, pois que é preciso ser uma ave que vai de encontro à economia doméstica às vezes, que dá de ombros ao sentido imposto pelos costumes sem o nosso consentimento Irei, porque dizem que as aves do sul são as mais felizes Não sei se serei mais feliz, sei, por outro lado, serei mais ave - e isso a mim, é o que me bastará


[Fotografias de meu amigo Renê, recortes-do-mundo-que-é-teu, que inspiram e sossegam os olhos em queda na noite em fim. http://olhares.com/renefernandes]

6 comentários:

nouvelles couleurs - vienna atelier disse...

Que sensibilidade Angela....

Renê Fernandes disse...

Perfeita homenagem Dynha! Adoro-te! rs

ma grande folle de soeur disse...

entre muitas outras coisas gostei da mulher com o corpo feito de fendas... abraço

Rafael sem h disse...

Escolhe aquilo que te basta. Que permeie a plenitude. E um dia a alcance. Pode ser que eu esteja errado, mas penso que mamíferos preenchem de fora pra dentro Um dia se dão conta da velhice, e toda a estrutura fria/firme/livre que existia, por não existir, desmorona.
É uma questão de princípios. A vida de ave pode não ser fácil, mas sempre te restarão os princípios. A vida de mamífero pode não ser difícil. Até que a consciência acuse a falta de princípios. Aí, arrisco, ela pode passar de fácil à insuportável...

CIMPOACA LAURENTIU disse...

nice images

Renê Fernandes disse...

Obrigado CIMPOACA LAURENTIU, são minhas. Veja mais em olhares.com/renefernandes